19/02/2020

O drama dos subalternos

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19/02/2020 - Por: Álamo Pimentel

Cumprir papéis subalternos expõe as pessoas a situações de assédio moral e de preconceitos diluídas no cotidiano. O recurso da expressão “inferno” para designar imposições da inferioridade no ofício pode ser compreendido como um desabafo e uma denúncia.

O tema já foi matéria de obras cinematográficas, literárias e de trabalhos acadêmicos de grande relevância no mundo contemporâneo. Histórias Cruzadas, filme lançado no ano de 2012 e dirigido por Tate Taylor, por exemplo, revela o sutil e o grotesco na inferiorização das domésticas negras que cuidam dos filhos das mulheres brancas nos Estados Unidos. Boca do Inferno, obra fenomenal de Ana Miranda, recorre à ficção para revelar os suplícios a que foi submetido o poeta Gregório de Matos Guerra, escritor baiano do século XVII que fez da literatura ofício de contestação do sistema. Pode o subalterno falar? Ensaio da pensadora indiana Gayatri Chakravorty Spivak nos ensina que o silenciamento pesa como sentença na condição de subalternidade, primordialmente sobre as mulheres.

No cenário da capital baiana, entre os anos de 2005 e 2006, participantes de um projeto de extensão realizado pela Universidade Federal da Bahia conheceram de perto o “inferno” das trabalhadoras e dos trabalhadores que atuam na Estação da Lapa, maior estação de transbordo urbano de Salvador. Entre os vendedores ambulantes, vigilantes, motoristas de ônibus e auxiliares de limpeza, o termo inferno traduz as situações de inferioridade impostas cotidianamente por aqueles e aquelas que se afirmam como superiores no trato com o subalterno.

O inferno emerge como denúncia de uma dupla forma de exploração: do corpo e da alma. Como se não bastasse a precarização das condições materiais no exercício da profissão, trabalhadoras e trabalhadores se veem inferiorizados na condição de existir e, o que é pior, são obrigadas e obrigados a calar suas revoltas porque estão convencidos de que “falam mas nunca são ouvidos”. Para saber mais sobre o tema, conheça a obra Atravessando o Inferno: aprendizagem e alteridade na extensão universitária, de Álamo Pimentel.

Conheça a obra do autor: Atravessando o Inferno: Aprendizagem e Alteridade na Extensão Universitária


 

Sobre o autor: Álamo Pimentel é doutor em Educação pela UFRGS, pós-doutor em Sociologia do Conhecimento pela Universidade de Coimbra (PT), professor do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências da Universidade Federal do Sul da Bahia e líder do Grupo de Pesquisa Sociedade, Educação e Universidade.