09/03/2020

O Funk entre criminalização e glamourização

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09/03/2020 - Por: Juliana Bragança

Muito se tem falado, pesquisado, revisto e debatido sobre a criminalização do funk. E não é pra menos! Jovens negros e negras seguem tendo seu direito ao lazer negado e vendo sua cultura  perseguida e criminalizada. Ao final do ano passado, por exemplo, nove pessoas, entre adolescentes e jovens, foram mortos no famoso Baile da DZ-7 em Paraisópolis, favela localizada na Zona Sul de São Paulo.

Não restam dúvidas que a criminalização do movimento funk e a perseguição aos seus adeptos, funkeiros e funkeiras, são partes de um processo maior de criminalização e da desvalorização da cultura negra como um todo e da perseguição de negros e pobres no Brasil.

Ao falarmos de criminalização do funk é quase automática a associação com a história do samba, que no início do século passado, foi também criminalizado e sambistas foram presos pelo gravíssimo crime conhecido como “vadiagem”. Além disso, é importante também lembrarmos que, nos últimos anos, as estatísticas de mortes violentas de jovens negros – por parte do próprio Estado ou não – vão tomando proporções cada vez mais desesperadoras e sombrias. E o funk? Bem, a criminalização do funk condensa tudo isso. Reflita!

Mas, é curioso também notar que, junto da criminalização do funk, acontece outro processo que abraça – eu me arriscaria a dizer, inclusive, que às vezes até sufoca (como uma abraço da Felícia, aquela personagem de desenho animado) – o movimento: a glamourização.

Enquanto a palavra criminalizar denota o sentido de “tornar crime” (basta um breve retorno às mídias dos anos 1990 pra perceber a associação entre “funkeiro” e “bandido”; associação esta que insiste em manter-se viva até hoje), glamourizar diz respeito a “atribuir glamour”.

Em outras palavras, o que estou chamando aqui de “glamourização” nada mais é do que a entrada do movimento funk nos circuitos mainstream e a apropriação do movimento pela indústria cultural. “E quando esse processo começou?”, você deve se perguntar. A glamourização do funk teve início quando a indústria do entretenimento percebeu as grandes cifras que o movimento conseguia fazer circular, mesmo estando a par da dela. E isso aconteceu ainda no início dos anos 1990, quando nossa moeda ainda era o cruzeiro.

Mas, não se deixe enganar. Esses dois processos podem parecer, àprimeira vista, antagônicos; mas, eles conseguem conviver. Não harmonicamente, é claro... Mas são sim concomitantes. Vejamos: enquanto há jovens sendo mortos em uma favela em São Paulo, um canal de funk no YouTube (KondZilla) torna-se o maior canal da América Latina. E isso acontece praticamente ao mesmo tempo, numa diferença de poucos meses.

Calma, tenho outro exemplo: enquanto DJ Rennan da Penha, idealizador do Baile da Gaiola, estava preso, MC Kevin o Chris (um dos maiores nomes do atual Funk 150 BPM) subia ao palco do Lollapalooza (um os maiores festivais de música do mundo) a convite do artista Post Malone.

Tudo isso em 2019.

E o que será que 2020 nos aguarda?

Para saber mais sobre o tema, conheça a obra “Preso na gaiola: a criminalização do funk carioca nas páginas do Jornal do Brasil (1990-1999)”.


 

Sobre a autora: Juliana da Silva Bragança é graduada em História pela Universidade Veiga de Almeida (2012) e mestra em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (2017). Tem o funk carioca como objeto de pesquisa há 10 anos e, com o intuito de divulgar os resultados de suas pesquisas, criou e gerencia o perfil @o.funk.carioca no Instagram. Siga! Atua também como professora efetiva do estado da Bahia desde 2019.