23/03/2020

A indisciplina escolar e seus agentes

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23/03/2020 - Por: Maria dos Prazeres Santos

INTRODUÇÃO

A indisciplina na escola, pela sua complexidade, implica a conjugação de diferentes visões dos atores envolvidos, nomeadamente, o professor, os alunos e a família, de forma a descortinar estratégias preventivas e/ou remediativas de situações de indisciplina, a fim de melhorar o ambiente em sala de aula e o clima e cultura da escola, numa perspectiva ecológica. O estudo da indisciplina escolar tem vindo a ser reforçado, devido à recorrência e às reclamações dos atores educativos. Para os professores, comprometidos com a democratização do ensino, é essencial resolver ou diminuir o problema indisciplinar, que continua a desafiar os diretores, coordenadores, alunos e, principalmente, os professores no cotidiano da sala de aula. Para a prevenção desse flagelo educativo, é fundamental acionar a reflexão de todos os envolvidos, em especial do diretor, dos professores e dos alunos, para lidarem com problemas indisciplinares na aula e potenciar a ação coletiva dos sujeitos integrantes da comunidade escolar, mediante o Projeto Político-Pedagógico.

ESCOLA E INDISCIPLINA

Cada vez mais, a escola está atenta aos desafios sociais e culturais que têm emergido ao longo dos tempos. As tecnologias de informação e da comunicação, as inquietações com o meio ambiente e a diversificada produção econômica, levam a que a escola sofra todas essas influências societais (GALLO, 2010). Por isso, a escola do século XXI representa um espaço predestinado a propiciar igualdade de oportunidades (GADOTTI, 2000). É por meio das técnicas e conhecimentos e dos valores sociais e comportamentais, por exemplo, na avaliação, na certificação, na ação disciplinar e na pedagogia, que se perpetua a educação, ao mesmo tempo que se transforma o olhar sobre o mundo que o rodeia (ALARCÃO, 2011).

Segundo Foucault (2019), disciplina procede em primeiro lugar à distribuição dos indivíduos no espaço. Para isso, utiliza diversas técnicas. É importante que o professor registre as presenças e as ausências e instaure as comunicações úteis, possa a cada instante vigiar o comportamento de cada aluno, apreciá-lo, sancioná-lo, mediar as qualidades ou os méritos. Procedimento, portanto, para conhecer, dominar e utilizar assim como era na fábrica. “A disciplina organiza um espaço analítico” (FOUCAULT, 2019, p. 131). De acordo com Vasconcellos (2007), o conceito de disciplina associado à obediência está muito presente no cotidiano da escola, mais ou menos conscientemente; isso porque há uma verdadeira “luta em classe”, onde o professor está procurando sobreviver, num contexto de tantos desgastes (VASCONCELLOS, 2007, p. 39).

Agentes da indisciplina escolar

A crise da disciplina está presente em várias esferas da sociedade. E na escola tem se manifestado de forma intensa. Trata-se de um momento assinalado pela desistência de educadores, violência dos educandos, destruição física dos prédios e materiais escolares, agressões físicas a docentes e a discentes, atos de vandalismo, entre outros.

A escola – As mudanças pelas quais o mundo tem vindo a sofrer, como a de responder aos desafios de uma sociedade globalizada, centrada na informação e nas novas tecnologias, obriga a escola a refletir sobre a forma como encara os novos modelos sociais. Isso porque a escola espelha no seu espaço os problemas e as tensões das esferas econômica, social, política, emocional e afetiva, entre tantas outras, “onde as subjetivações das condições vividas nesse tempo acontecem [...] com toda radicalidade” (JUSTO, 2010, p. 37). Segundo Antunes (2017), a instituição escolar é um foco de indisciplina, muitas vezes por sua organização interna, por seus sistemas de sanções, pela não integração e união entre sua equipe docente e administrativa, pelo estilo da autoridade exercida, mas, sobretudo, pela ausência de clareza como encara a questão disciplinar.

O professor – Cada vez mais, o ato de ensinar é um processo complexo que envolve um conjunto de fatores. A associação do fenômeno da indisciplina, ligado à agressividade e à criminalidade, tem dado origem a que muitos professores abandonem o ensino por problemas psicológicos (ARTHUR; DAVISON; LEWIS, 2005). Ligados diretamente à autoridade do professor, os problemas da indisciplina emergem muitas vezes associados à relação pedagógica. Quando o professor não estabelece de maneira exequível, normas de direção de classe; o uso constante da mesma técnica de ensino torna as aulas monótonas e desinteressantes. “O comportamento distante do professor, a despersonalização da relação originada pelo professor que ignora o nome do aluno, a brandura quando é esperada a força, são algumas situações que suscitam a retaliação do aluno” (ESTRELA, 2002, p. 80).

O aluno – A escola é o lugar onde o jovem apreende as regras escolares e “a sua relação com a autoridade escolar determina as atitudes face ao sistema escolar e social” (PEREIRA, 2004, p. 50). Alguns alunos, mesmo conhecendo as regras, acabam por se envolver em comportamentos de indisciplina. Por norma são jovens cujo projeto de vida não passa pela escola e com gostos e valores diferentes dos da escola. Quando uma criança ou adolescente parece estar a afrontar um professor, tal ato não pode ser interpretado unicamente como deliberada insubordinação, mas também como “testar os limites” (MORALES, 2002). Várias são as causas promotoras de indisciplina que podem ser resultantes de fatores biológicos, sociais, psicológicos e pedagógicos.

Causas biológicas: desnutrição, de esgotamento físico, verminoses, defeitos físicos; o estado de irritação sexual; Causas sociais: uma alimentação menos cuidada, falta de condições de habitação e saúde têm consequências ao nível do desempenho escolar, acompanhadas por perturbações na concentração e integração escolar. Por outro lado, condições socioculturais muito elevadas podem, igualmente, desencadear a indisciplina. Causas psicológicas: a necessidade de receber a atenção, dificuldades emocionais, a ocorrência de hiperatividade, a deficiência mental leve, o fracasso constante, dificuldades emocionais e de comportamento que incluem, entre outros, a depressão, fobias e desordens de conduta. Causas pedagógicas: os alunos não se envolvem na aula, falta de zelo pelos livros e outros materiais escolares. Não fazem as atividades ou perdem-nas, não participam de uma atividade dinâmica ou coletiva, boicotam as atividades com faltas injustificáveis. Por conseguinte, explorar os conteúdos de modo crítico é importante igualmente para despertar o interesse do aluno e evitar a indisciplina, bem como para educar indivíduos conscientes.

A família – As dinâmicas familiares são fundamentais no processo educativo organizando a socialização primária mais também a socialização secundária do jovem. Pinto (2007, p. 141) afirma que “o grau de congruência entre aprendizagens familiares e escolares que se repercute soba forma de probabilidades muito desiguais de sucesso no sistema de ensino, depende fortemente do modo como as primeiras conseguem inculcar […] projetos de mobilidade/confirmação social baseados em investimentos escolares”. As expectativas que o aluno coloca sobre a escola em geral, comportam, também, as expetativas da família a que pertence. Assim, “as expectativas da escola, podem, por exemplo, dar à autoridade dos pais uma legitimidade que lhes escapa noutros domínios, como em relação às horas de sono ou o modo como se apresentam”. Atualmente alguns pais confessam “não saberem como se fazer obedecer”, podendo, então, “encontrar na disciplina escolar um apoio, ou mesmo um substituto da sua autoridade falhada” (PERRENOUD, 2001, p. 80).

CONCLUSÃO

Considerando que o fenômeno da indisciplina não se concretiza em si mesmo, precisamos recuperar a capacidade de sonhar, resgatar a utopia de um mundo melhor, ter uma visão de futuro, relembrando que é o homem que faz a história. Construir uma nova disciplina, com certeza, é tarefa de todos. Então, é importante destacarmos a questão da participação em sala de aula e na escola. A participação na vida da escola é muito significativa. Os alunos, por meio de representantes de classe, Conselho Escolar, podem ajudar a pensar a escola no seu conjunto. É claro que essas perspectivas de participação estão pressupondo um professor e uma escola reflexivos abertos, que tomem a iniciativa de propor o diálogo. O aluno precisa ganhar clareza de que o estudo é um trabalho, que pode e deve ser realizado, mas exige esforço e dedicação. Insistimos na perspectiva de parceria, de reciprocidade e não de acusação entre alunos, professores, diretores, pais, para a construção de um novo sentido e de um novo relacionamento na escola.

REFERÊNCIAS

ALARCÃO, I. Professores reflexivos em uma escola reflexiva. 8. ed. São Paulo: Cortez, 2011.

ANTUNES, C. Professor bonzinho = aluno difícil: a questão da indisciplina em sala de aula. 11. ed. Petrópolis: Vozes, 2017.

ARTHUR, J.; DAVISON, J.; LEWIS, M. Professional values and practice: achieving the standards for QTS. London: Routledge Falmer, 2005.

ESTRELA, M. T. Relação pedagógica, disciplina e indisciplina. 4. ed. Porto: Porto Editora, 2002.

FOUCAULT, M. Vigiar e punir: nascimento da prisão. 42. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2019.

GADOTTI, M. Perspectivas atuais da educação. São Paulo em Perspectiva, versão on-line, v. 14, n. 2, p. 3-11, 2000. Disponível em: http://dx.doi.org. Acesso em: set. 2015.

GALLO, S. Filosofia, educação e cidadania. In: PEIXOTO, A. (org.). Filosofia, educação, cidadania. 3. ed. Campinas: Alínea, 2010. p. 133-153.

JUSTO, J. S. Escola no epicentro da crise social. In: LA-TAILLE, Y.; PEDRO-SILVA, N.; JUSTO, J. S. (org.). Indisciplina/disciplina: ética, moral e ação do professor. 3. ed. Porto Alegre: Mediação, 2010. p. 23-54.

MORALES, P. A relação professor-aluno. São Paulo: Loyola, 2004.

PEREIRA, O. Fundamentos de comportamento organizacional. 2. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2004.

PERRENOUD, P. O que a escola faz às famílias. In: MONTANDON, C.; PERRENOUD, P. (org.). Entre pais e professores, um diálogo impossível? Para uma análise sociológica entre a família e a escola. Oeiras: Celta, 2001. p. 57-112.

PINTO, M. Investigação científica, aprendizagens escolares, reflexividade social. Porto: Afrontamento, 2007.

SANTOS, Maria dos Prazeres dos. O dilema da indisciplina escolar e as práticas pedagógicas: um olhar para além da escolar. Curitiba: Appris, 2020.

VASCONCELLOS, C. Disciplina: construção da disciplina consciente e interativa em sala de aula na escola. 3. ed. São Paulo: Libertad, 2007.

 Para saber mais sobre o tema, conheça a obra O Dilema da Indisciplina e as Práticas Pedagógicas: um olhar para além da escola.


 

 

Sobre a autora: Maria dos Prazeres dos Santos é Mestra em Ciências da Educação pela Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias (ULHT – Lisboa, PT), especialista em Educação, Desenvolvimento e Políticas Educativas pelo Centro Integrado de Tecnologia e Pesquisa (CINTEP)/ Faculdade Nossa Senhora de Lourdes, especialista em Educação e Gestão pela Faculdade Pio Décimo, especialista em Psicopedagogia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Candeias (FAC), graduada em Pedagogia, Letras Português/Inglês pela Universidade Tiradentes (UNIT). É professora no ensino público e na rede privada, além de diretora. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Ensino e Aprendizagem, Formação de Professores, Práticas Pedagógicas, Gestão Escolar, Projeto Político Pedagógico, Educação de Jovens e Adultos, Conhecimentos Pedagógicos, Inglês, Educação e Cultura Popular, Arte, Português e Literaturas. Artigos publicados: “Indisciplina, Sociedade e Escola: Um Dilema Atual” (Livro – Vozes da Educação VII: Diálogo Freiriano); “Indisciplina Escolar” (Anais de Congresso, UFS), entre outros.