07/04/2020

Sujeito, linguagem e tecnologias: o uso das ferramentas digitais na educação básica

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07/04/2020 - Por: Leonarlley Rodrigo Silva Barbosa

Ao olhar em nossa volta percebe-se que as tecnologias digitais estão em todos os espaços sociais. Smartphones, tabletes, notebooks, entre outros, fazem parte da vida dos nossos alunos e a escola é um dos poucos espaços sociais que ainda resistem ao uso desses aparelhos na sala de aula. Porém aos poucos essa resistência está sendo quebrada, mas ainda há um longo caminho a ser percorrido. Ainda encontramos professores resistindo ao uso das ferramentas digitais seja por falta de conhecimento e manuseio ou mesmo por não quererem incorporar em suas metodologias de ensino, mantendo suas aulas unicamente em leituras e aulas expositivas. Já outros estão dirigindo seus esforços para descobrir e experimentar novas formas de ensinar. Outro ponto importante é tirar a ideia de consumo e mercado referente ao uso das tecnologias, então uma pergunta lhe faço: é possível utilizar as novas tecnologias sem ter o enfoque da lógica do mercado e do consumo bem como assegurar o ensino e a aprendizagem dos nossos alunos? Vamos às reflexões...

São muitas as contribuições das tecnologias digitais na área educacional, mas para que isso ocorra, o professor deve determinar como esse processo poderá ser encaminhado. As múltiplas linguagens que essas ferramentas nos trazem mostra-nos a importância de se estar nos espaços escolares, pois amplia o acesso dessas novas linguagens disponíveis no mundo digital.

Nossos alunos já estão fazendo uso das mídias digitais fora da escola. Resta agora ao professor potencializar tais recursos como mediador no processo de aprendizagem dos alunos (RODRIGUES, 2018). O uso da internet pelos alunos aumentou significativamente, então é possível aliar as mídias digitais com os conhecimentos científicos. É preciso tirar a ideia mercadológica e usá-la de modo pedagógico. E para esclarecer melhor de como usar pedagogicamente, explicarei em poucas palavras a concepção de linguagem e como as tecnologias podem potencializar o processo de ensino e aprendizagem.

Sobre a linguagem destaco que o indivíduo é constituído por meio dela. É só por esse viés que percebemos o mundo, elaboramos experiências, constituímos nossas subjetividades e singularidades. A Psicanálise vem, com o passar do tempo, problematizar essa atividade de linguagem em suas pesquisas, ampliando assim a sua concepção dentro da educação em uma perspectiva mais produtiva.

Freud, que é considerado o Pai da Psicanálise, atribui um papel importante à linguagem na psique a partir do conceito do inconsciente. Ele divide o aparelho psíquico em três partes: o consciente, o pré-consciente e o inconsciente.

Segundo Freud (2011), o consciente seria a superfície do aparelho psíquico que recebe todas as percepções que vem de fora (percepções sensoriais) e de dentro, às quais chamamos de sensações e sentimentos, ou seja, todo o tipo de linguagem em que o sujeito está inserido é apreendido por meio dos sentidos. O pré-consciente fica entre o consciente e o inconsciente e lá ficam os resíduos de memória, ou seja, não estão mais em nossa consciência. Para que esses resíduos voltem para a consciência se faz necessário o uso das linguagens. Lembra quando um amigo te faz recordar de algum fato vivido e ele usa várias linguagens até você lembrar o momento ocorrido? Pois então, a partir do momento que você lembra os fatos são os resíduos de memórias que estavam no pré-consciente e que voltou à tona para a consciência. Conforme interagimos com o outro, seja ele sujeito e/ou objeto, em um contexto, podemos tornar conscientes essas lembranças guardadas, fenômenos mentais movidos pelos estímulos socioculturais. Já no inconsciente, há materiais que não são acessíveis, mas que de alguma forma manifestam-se em nosso comportamento, seja na fala, no gesto, na pintura, no olhar, na música, na produção de texto, enfim, em todas as formas de linguagem, inclusive nas que as mídias digitais nos oferecem, expondo assim as nossas singularidades e subjetividades. Ao contrário do que se pensa, não agimos o tempo todo de forma consciente, há algo mais que nos invoca que são as manifestações inconscientes em vários sinais do comportamento humano. Assim, os três se relacionam e é isso que nos faz únicos, singulares. Daí podemos perceber a importância das múltiplas linguagens dentro dos espaços escolares incluindo as linguagens oferecidos pelas tecnologias digitais.

Então, as tecnologias contribuem também para a formação humana em suas singularidades e subjetividades bem como pode manifestá-las por meio delas. Assim como não podemos colocar a linguagem como uma mera ferramenta, as mídias também não podem ser consideradas somente um instrumento, pois afetam também a constituição do sujeito. Não é só utilizar para publicar textos, músicas, vídeos e demais linguagens que as tecnologias nos oferecem, é para além e para isso é preciso a desnaturalização da lógica do mercado que orienta seu uso e desenvolvimento. Faz-se necessário pensar que as contribuições tecnológicas possibilitam mais inserção aos mais diversos tipos de linguagem e influencia nas relações subjetivas e singularidades de cada indivíduo, proporcionando novas marcas e experiências que afetará seu consciente, pré-consciente e inconsciente, tornando um sujeito mais autônomo, crítico e ativo socialmente.

A escola é um espaço privilegiado para o trabalho dessa natureza. O seu papel é direcionar os alunos no uso das ferramentas em favor da aprendizagem e conhecer novas formas de produzir significações. Então se a escola fará o uso das tecnologias digitais, é preciso que respeitem o que os alunos elaboram, pois ali estão as suas percepções de mundo, subjetividades e singularidades. E quando pedimos para que os alunos usem as ferramentas, sejam elas para publicar textos, desenhos, vídeos, entre outros, eles irão perceber que estão publicando para um público e essas questões motivam os alunos a procurarem formas de resolver e devemos respeitar esses momentos, uma vez que eles irão colocar ali suas percepções.

Que os nossos alunos não usem as tecnologias somente como instrumento, mas sim que sejam protagonistas de sua experiência com o saber. Que seja um espaço que possam expressar suas opiniões e serem reconhecidos como sujeitos ao verem seus trabalhos publicados. O aluno se põe como lugar de autor e assim pode manifestar sua concepção de mundo.

Para conhecer mais sobre essa abordagem, você poderá ler a obra Jornal Digital na Educação Básica: um exercício de autoria, de Leonarlley Rodrigo Silva Barbosa e Maria Alice de Sousa Carvalho Rocha.

REFERÊNCIAS

FREUD, Sigmund. O eu e o ID, “Autobiografia” e outros textos (1923 – 1925). Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.

RODRIGUES, Cleide Aparecida Carvalho. Crianças e adolescentes e a cultura digital: caminhos e descaminhos. In: RODRIGUES, Cleide Aparecida Carvalho. Formação: um desafio cultural. 1. ed. Curitiba: Appris, 2018.


 

Sobre o autorLeonarlley Rodrigo Silva Barbosa Mestre em Ensino na Educação Básica pela Universidade Federal de Goiás/UFG (2018), especialista em Educação para a Diversidade e Cidadania pela UFG (2012) e graduado em Pedagogia pela mesma instituição (2009). Tem certificação em Proficiência no Uso e no Ensino de Libras, categoria Fluentes em Libras nível médio, do Ministério da Educação (MEC/2008). Criador do site Folhinha Aplicada (www.folhinhaaplicada.com), editor-chefe, diagramador e revisor. É professor efetivo da Rede Municipal de Educação de Goiânia.