09/04/2020

Superando os sentidos do câncer

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09/04/2020 - Por: Simone Antoniaci Tuzzo

Sentir é precioso e ao mesmo tempo é único, singular, próprio de quem sente. Penso ser importante refletir sobre as sensações que a vida nos apresenta e as múltiplas formas de aromas, sabores, tatos, visões e sons existentes.

Sentimentos e sentidos não são fáceis de explicar, porque as construções discursivas são feitas a partir de uma escolha de palavras que nem sempre são capazes de expressar um fato, o discurso limita-se ao repertório de uma experiência de vida e as comparações e ana­logias são empregadas para tentar facilitar a compreensão, mas a verdade é que nem todas as palavras são capazes de traduzir o que é do coração.

Além disso, há o receptor, que, ao ter em mãos um conjunto de palavras chamado texto, tentará interpretá-lo a partir de seu repertório e de sua experiência de vida. Por isso, escrever o que se sente é sempre uma tentativa de expressão para alguém que terá uma tentativa de interpretação.

Há vários sabores no mundo que nunca experimentei. Alguns por opção minha, outros por falta de oportunidade e outros por falta de conhecimento de sua existência. Inútil alguém tentar explicar-me esses sabores, porque, para mim, só faz sentido aquilo que posso experimentar, viver, sentir e comparar com o que eu já conhecia. Além disso, posso dizer se gosto ou não gosto, se é melhor ou pior do que as minhas experiências anteriores.

Tente explicar para alguém a brisa do mar, o cheiro da flor, o toque do veludo, o sabor da jaca, a cor das estrelas! Essas, sem dúvida, serão explicações cheias de tentativas de comparação, de associação, de formas de verbalizar o que não se explica em palavras, mas que se sente e que é próprio de quem experimenta, carregado de valores e subjeções absolutamente indescritíveis.

Quando uma pessoa é apresentada ao sentimento de uma doença grave, como o câncer, por exemplo, vários sentimentos podem aflorar, a fúria, os questionamentos, a dor, a esperança ou a falta dela, o desespero ou a esperança de cura, enfim, sentimentos humanos e divinos, próprios de superação ou de culpar Céu e Terra pelo ocorrido, colocar-se como um ser que superará ou uma vítima.

Certa vez um atleta foi diagnosticado com uma doença que o afastaria das competições. Era um atleta renomado, de conquistas, no auge da carreira de muitos títulos e vitórias. E, para ele, impávido diante da situação, foi perguntado se ele não questionava Deus sobre o porquê de tê-lo apresentado à doença no auge de sua carreira brilhante; e ele, sereno, respondeu que não, pois, se nos momentos de glória ele nunca perguntou a Deus porque ele era o eleito, porque, entre tantas pessoas, ele havia sido abençoado com uma carreira de glamour, também não se sentia no direito de questionar a dor. Simplesmente, aceitava a glória e a experiência do amargo com a mesma fé!

Deus não escolhe as pessoas só para a doença, muito pelo contrário, escolhe-nos para o aprendizado, para as experiências do dia a dia, para as conquistas, as glórias e alegrias, escolhe-nos para o legado que deixamos para aqueles que convi­vem conosco. Ele escolhe-nos todos os dias e apresenta-nos diversas experiências. A doença é só mais uma delas!

Afinal, o que é a saúde?! Por muito tempo, ela foi conceituada exclu­sivamente como a ausência de doença. Fatalmente, nossos sentidos sobre saúde só são acionados em situações de sua ausência. Em momentos em que a eminência de uma doença, ou o diagnóstico confirmado de tal, é jogada em nossa face. Nesse momento, há a escolha.

Nem sempre temos a condição de escolher sobre a saúde física, devido às fatalidades, mas sobre todas as outras partes que compõem o ser saudável temos maior autonomia, contribuindo para nos sustentar em momentos mais difíceis e buscar a superação.

Por falar em superação, pou­cos pensam sobre a estrutura dessa palavra, porém para que se supere algo, de fato, é necessário uma super + ação.

Em outros termos, uma atitude acima do esperado, algo que lhe retira da zona habitual de conforto, uma prática que outrora acreditaria não ser possível... e assim fica possível uma reprogramação mental e energética.

Até algumas décadas, trabalhava-se exclu­sivamente com a avaliação do coeficiente intelectual das pessoas, o famoso “QI”. Mais recente, já se fala do coeficiente emocional "QE", responsável por tornar possível a colaboração e a convivência social. Atualmente, percebe-se que pessoas com maior potencial de desenvolvimento em qualquer área possuem também um coeficiente espiritual "QS" elevado, pois possuem propósito. A fé que movimenta uma escolha pode ser sustentada por um propósito de vida, de amor e dedicação à família, aos amigos, ao trabalho, não importa, cada pessoa possui um propósito para querer continuar vivo.

Para saber mais sobre sentidos e superação sobre o câncer, conheça a obra O Sabor da Jaca, de Simone Antoniaci Tuzzo.


 

Sobre a autora: Pós-doutora e doutora em Comunicação e Cultura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro; mestre em Comunicação Social e graduada em Relações Públicas pela Universidade Metodista de São Paulo. É professora efetiva do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Goiás. É autora e organizadora de livros na área da comunicação com destaque para Os sentidos do impresso e Deslumbramento coletivo. É comunicóloga, consultora, palestrante, professora e pesquisadora. É casada e mãe de dois filhos.
Possui um site com todos os seus livros, artigos opinativos, textos acadêmicos e publicações científicas:
www.simonetuzzo.com. Contato: simonetuzzo@hotmail.com