17/04/2020

Saúde mental em tempos de Coronavírus

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17/04/2020 - Por: Carlos Eduardo de Sousa Lyra

 

Vivemos tempos difíceis. Estamos atravessando uma época de crises políticas, econômicas e ambientais que têm nos afetado profundamente. Diariamente, somos bombardeados por notícias que extrapolam, muitas vezes, a nossa capacidade de elaborá-las em intervalos de tempo cada vez mais curtos. Além disso, somos permanentemente desafiados a distinguir entre as notícias com base em fatos verdadeiros e as fake news. Não bastasse o clima de incertezas causado por essas crises, fomos surpreendidos pelo surgimento de uma nova doença, a COVID-19, provocada por um coronavírus, o SARS-COV-2, que surgiu na China em dezembro de 2019.

Tendo em vista que o mundo está passando por mudanças importantes de maneira muito rápida e abrupta, é natural que isso tudo nos leve a perguntar se seremos capazes de lidar com o sofrimento causado pela incerteza quanto ao futuro de nosso planeta e dos seres humanos que o habitam. Desse modo, somos tomados por angústias ou pânico diante do desconhecido. O medo de adquirirmos a doença causada pelo novo coronavírus pode provocar sofrimento psíquico; contudo devemos considerar que o medo é uma reação natural de nosso organismo frente a um perigo iminente. Diante de uma possível ameaça, podemos fugir ou reagir. Como se trata de um inimigo invisível, um vírus ainda pouco conhecido, é possível que algumas pessoas entrem em pânico por não conseguirem lidar com as incertezas provocadas pela presença de um agente patológico que pode estar circulando por nosso ambiente sem que saibamos como detectá-lo de modo que possamos evitá-lo. Por essa razão, é preciso adotar medidas mais radicais de isolamento social, o que nos leva a uma situação de privação, proibição ou frustração.

Sigmund Freud, em O Futuro de Uma Ilusão, texto publicado em 1927, refere-se ao sujeito do conflito como aquele que, diante da impossibilidade de satisfazer seus desejos mais primitivos, é levado a renunciá-los, dando origem ao sentimento de frustração e à privação do objeto, o que explica o comportamento antissocial do neurótico. Já na contemporaneidade, outras formas de subjetivação emergiram, sendo caracterizadas pelo imediatismo, pela permissividade e pelo gozo. Num mundo globalizado, conectado por meios de transporte e de comunicação cada vez mais rápidos e eficientes, passamos a ter acesso quase que instantâneo aos mais variados objetos de consumo. O desejo parece ter sido reduzido à satisfação imediata do gozo. Além disso, o individualismo exacerbado, muitas vezes, leva-nos a perder a noção de coletividade. A alteridade desaparece, dando lugar ao narcisismo das pequenas diferenças, como diria Freud.

O surgimento de uma ameaça desconhecida, capaz de desafiar a ciência e pôr em questão a própria dinâmica do capitalismo, levou-nos muito rapidamente a uma situação de privação e isolamento social numa escala global, o que parece ser algo inédito na história da humanidade. A principal recomendação da Organização Mundial de Saúde, adotada por inúmeros governantes das mais diversas nações, é a de ficar em casa. Subitamente, o mundo parou: as bolsas de valores sofreram quedas vertiginosas e muitas pessoas passaram a ter que se adaptar ao trabalho a distância por meio do home office. Rapidamente, os estoques de máscaras cirúrgicas e de álcool em gel sumiram das prateleiras das farmácias, os supermercados e bancos lotaram, as pessoas passaram a adotar medidas de higienização dos corpos como uma tentativa de se prevenir da contaminação pelo vírus. Fomos tomados por um sintoma típico de uma neurose obsessivo-compulsiva: lavar as mãos constantemente. De fato, esse parece ser o método mais eficaz e recomendado para evitar a transmissão dos mais diversos agentes patológicos, incluindo o novo coronavírus. Além disso, a súbita paralização dos serviços de transporte, bem como de parte do comércio e da indústria, somada à já mencionada corrida aos supermercados e às farmácias, parece sinalizar a presença de uma histeria coletiva. O comportamento histérico e obsessivo da população, no entanto, não sinaliza necessariamente a existência de um transtorno psíquico em cada indivíduo, embora algumas pessoas possam apresentar sintomas de angústia e pânico. Não se trata, portanto, de uma situação individual, mas de um mecanismo de defesa coletivo, que precisa ser gerenciado pelas autoridades públicas, as quais devem analisar diariamente o avanço da pandemia e planejar ações de contenção e enfrentamento da contaminação pelo vírus, de modo que a sociedade possa lidar com esse problema sem perder de vista a racionalidade e a organização necessárias para que se possam produzir resultados exitosos.

Há, porém, outros mecanismos de defesa que podem dificultar as ações necessárias para conter essa pandemia, dando margem a comportamentos paranoicos e perversos por parte de indivíduos comuns ou de autoridades públicas. A negação de parte da realidade, bem como a projeção de pensamentos e sentimentos não reconhecidos em si e transferidos para o outro, podem colocar em risco a saúde individual e coletiva, física e mental. É preciso combater não apenas o vírus, mas também as fake news. A primeira tarefa deve ser atribuída às autoridades e aos profissionais da área da saúde, que atuam na linha de frente do combate ao vírus. Já a segunda tarefa deve ser realizada pelos profissionais da área da educação e da comunicação, fornecendo à população informações acessíveis e de qualidade. Não há como vencer essa guerra sem a cooperação de cada um desses profissionais e autoridades públicas. É preciso destinar recursos financeiros para a compra de equipamentos e insumos necessários para a proteção dos profissionais de saúde e para o tratamento das pessoas doentes. Também é importante assegurar os empregos dos trabalhadores que tiveram que se afastar de suas atividades laborais, bem como garantir uma renda mínima para a sobrevivência das famílias mais pobres. Não há saúde individual sem o cuidado com a saúde coletiva, especialmente no caso de uma pandemia.

É preciso, portanto, cuidar do corpo, da mente e do outro. O cuidado com o corpo envolve uma boa alimentação, a higienização preventiva e exercícios físicos regulares. O cuidado com a mente requer a manutenção da produtividade e de uma rotina diária de trabalho, o que inclui tanto os serviços domésticos como os serviços públicos e privados exercidos por meio eletrônico, em atividades home office; além disso, é preciso alternar o trabalho com momentos de descanso e lazer. Por último, é importante manter a interação com amigos e familiares por meio das redes sociais virtuais, evitando o contato físico, mas estimulando o cuidado com o outro, especialmente com os idosos e pessoas mais vulneráveis. Devemos nos manter bem informados, acompanhando os boletins diários do ministério e das secretarias estaduais e municipais de saúde, bem como dos veículos da mídia especializada.

Não devemos subestimar os efeitos da pandemia do coronavírus sobre a saúde física e mental das pessoas. Trata-se de uma situação que certamente envolverá muita dor e sofrimento, mas que também poderá ser uma oportunidade valiosa para aprendermos novas maneiras de agir e interagir com as outras pessoas e com o meio ambiente. Não devemos de forma alguma perder a esperança, pois o ser humano é capaz de se adaptar às situações adversas, desde que mantenha o senso de coletividade e a sua capacidade extraordinária de tomar decisões com base na racionalidade, motivada por sentimentos humanos de solidariedade e empatia, bem como pelos conhecimentos teóricos, metodológicos e técnicos adquiridos por meio da pesquisa científica.


 

Carlos Eduardo de Sousa Lyra é professor adjunto da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Doutor em Ensino, Filosofia e História das Ciências (UFBA/UEFS). Mestre em Psicologia (PUC-Rio). Graduado em Psicologia e Filosofia (UFPB). Possui artigos publicados em periódicos científicos nacionais nas áreas de Psicologia, Psiquiatria, Neurociências, Filosofia e História. É autor do livro Da angústia ao pânico: sonhos, sintomas e desamparo (2018), publicado pela Editora Appris.