23/04/2020

O colo que salva

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23/04/2020 - Por: Antonelli Braga

 

Lembro-me de que quando éramos crianças e estávamos diante de algum perigo, visível ou invisível, nós corríamos para o "colo" dos nossos pais, pois lá encontrávamos o abrigo e o amparo capazes de nos confortar diante dos "inimigos". Éramos pequenos, frágeis e não tínhamos conhecimento sobre o que precisávamos fazer naquele momento, mas nossos pais eram "grandes" não só pelo tamanho, mas porque estavam numa "instância superior" de conhecimentos, quase sempre tinham as respostas para as nossas aflições, e se não as tinham, sabiam como nos tranquilizar. Eles eram os responsáveis por nós e a simples presença deles, pelo que significavam para nós (a segurança), nos confortava e o medo, a angústia e a ansiedade desapareciam.

Hoje somos adultos, muitos de nós têm filhos e somos "os grandes" da vez, aqueles cujos filhos correm buscando o "colo" e que, com os nossos conhecimentos, somos capazes de confortá-los e espantar os perigos que os ameaçam. Será?

Os perigos que ameaçam os nossos filhos nos ameaçam também. São "visíveis e invisíveis" também para nós. Infelizmente, para nós adultos e pais que ainda têm seus pais vivos, não há como correr para os seus colos, pois os perigos que estamos enfrentando são para eles ainda maiores e eles não podem nos dar seus colos. Ao contrário, são eles que precisam do nosso!

Quem então poderá nos dar o "colo" que todos buscamos? Quais são os "inimigos" que estão nos afligindo e levando muitos ao desespero? Vamos sobreviver aos "inimigos"? Que tal a gente descobrir juntos as respostas a essas três questões? Primeiramente, vamos responder à segunda pergunta e identificar os "inimigos" para saber quais as "armas" que usaremos contra eles. Há "inimigos" fora de cada um de nós, que chamarei de "inimigos externos", e há "inimigos" dentro de cada um de nós, que chamarei de "inimigos internos". Há uma relação direta de causa e efeito entre eles: os "inimigos externos" são tudo aquilo que estão fora de nós e que nos afetam e geram em nós os nossos "inimigos internos". Acredito que o principal "inimigo externo" que hoje estamos todos enfrentando seja justamente a "ausência de colo". Isso porque, acima dos nossos pais, isto é, na "instância superior" a deles, estão as pessoas que, tecnicamente, têm as informações necessárias para dominar o "inimigo", dando-nos esse tão desejado "colo" para espantar nossos medos. Eles representam as figuras dos nossos pais, são os "grandes" da vez, e são a resposta à primeira pergunta. São eles: em primeiro lugar, os pesquisadores e profissionais nas mais diversas áreas da Saúde e dos seus respectivos órgãos oficiais, como as Secretarias de Saúde nas suas três esferas de Governo e, em segundo lugar, os nossos governantes e representantes dos legislativos. Não nos esqueçamos de que esses segundos atores dependem dos conhecimentos dos primeiros para tomar suas decisões, no que diz respeito às ações que irão afetar a vida de todos. O problema maior, o qual é o nosso "inimigo externo visível", é que há controvérsias no que é dito entre eles, mesmo entre os especialistas, sobre o que devemos fazer para enfrentar nosso "inimigo externo invisível", o Coronavírus. Ou seja, quem poderia nos dar o "colo" na ausência dos nossos pais não estão dando, pelo menos com a segurança que precisamos. Razão pela qual estamos nos sentindo desamparados. O segundo principal "inimigo externo" é a "avalanche" de informações que nos chegam a todo instante, muitas sem qualquer garantia de serem verdadeiras e, como disse, muitas vezes divergentes entre si. Muitas pessoas produzem informações que são disseminadas nas redes sociais. Dentre essas pessoas encontramos aquelas bem intencionadas, mas que não nos dão nenhuma garantia de serem fontes fidedignas sobre as suas informações; outras que só querem aproveitar a "onda" e serem famosas, há também aquelas que não são bem intencionadas e só querem causar pânico na população. Vou citar apenas mais um grande "inimigo externo" que é o isolamento social. Ele nos traz problemas sérios e proporcionais ao tempo que ocorre, internamente como veremos adiante e externamente como questões relacionadas à vida financeira e à sobrevivência. Bem, esses "inimigos externos" geram em nós os nossos "inimigos internos", que são sentimentos e sintomas desagradáveis, como solidão, a insegurança, o medo e a ansiedade e que, como disse, levam muitos ao desespero. Esse é o quadro que vivemos, como se estivéssemos num local de muita aglomeração de pessoas e, de repente, uma bomba explodisse próximo a nós gerando caos, provocando histeria, todos correndo para diversas direções sem saber o que está acontecendo e sem enxergar uma saída ou um local seguro para ficar. As pessoas buscam se proteger como podem e esperam a poeira abaixar para decidirem o que fazer. Já viram isso em algum filme ou documentário?

Respondendo à última pergunta, se vamos sobreviver aos "inimigos", ou seja, a esse caos, quero dizer que sim, mas certamente teremos que ressignificar muitos valores das nossas vidas e nos adaptar às mudanças no grande palco da vida no qual representamos os nossos papéis.

Como psicólogo, quero deixar aqui a minha pequena contribuição, no sentido de trazer algumas informações que sirvam de reflexão, de bálsamo e de orientação para todos que sofrem com toda essa situação. Tenho para mim que todo e qualquer problema é sinônimo de oportunidade e essa oportunidade é proporcional ao "tamanho" do problema. Portanto, comece percebendo que o SEU problema é NOSSO, é de TODOS, ou seja, você NÃO está sozinho(a) (e nem deve ficar!). Viva o SEU momento, ou seja, viva o HOJE e resolva o que consegue resolver HOJE, pois os problemas de amanhã serão resolvidos amanhã. PEÇA ajuda se precisar, porque você NÃO está sozinho(a) (e nem deve ficar!). NÃO se preocupe com os "inimigos externos visíveis", pois NÃO cabe a você decidir o que a população deve fazer. O que importa é a SUA decisão e ela deve ser pautada no bom senso quando se tem dúvidas. Aqui vai a minha dica para esses momentos de dúvidas nas decisões: analise o cenário, veja as possibilidades e, pelo sim, pelo não, escolha a melhor opção! Qual é a melhor opção? Aquela que trará menos riscos, ou menos sofrimentos e maior chance de sucesso no que deseja. NÃO fique abrindo postagens por curiosidade, porque elas mostrarão controvérsias, incertezas e irão gerar mais desconfortos ainda. Depois que a poeira abaixar, todos nós, sobreviventes dessa catástrofe, teremos condições de enxergar a verdade sobre tudo que foi postado, como as teorias de conspirações, os exageros (ou não) sobre as medidas de isolamento etc. Nada como o tempo para descortinar a verdade dos bastidores desse palco que atuamos. Até lá, ficam as dicas sobre as oportunidades que esse grande caos nos oferece: aprender a nos conhecer, a superar as adversidades da vida, a vencer o orgulho e pedir ajuda, a cuidar de nós, das pessoas, dos animais, das plantas, da casa e de tudo mais que negligenciamos no dia a dia em razão das nossas rotinas. Esse grande problema nos ensina a sermos solidários e nos faz descobrir que o "colo", aquele que nos ampara, que nos protege dos "inimigos externos e internos" está bem aqui: é o nosso (para nós mesmos e para os outros), é o do outro que está ao nosso lado, ou distante, é aquele que sempre está disponível onde há o amor incondicional, como o é o dos nossos pais para nós. Estamos juntos e juntos venceremos!


Antonelli de Alvim Braga é especialista em Gestão de Recursos Humanos. Graduado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Professor e terapeuta formado em regressão de memória pela Sociedade Brasileira de Terapia de Vida Passada (SBTVP).