27/04/2020

Covid-19 e os rumos da educação brasileira

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27/04/2020 - Por: Teresinha Morais da Silva

Acredito que a experiência de 2020 será um marco decisivo na educação, visto que a pandemia do Covid-19 nos apresenta, mais do que nunca, a necessidade de repensar o papel social da educação para além do processo de escolarização. No Brasil medidas emergenciais foram tomadas para garantir o processo educativo, entre elas, o trabalho educacional remoto. No entanto, diante de tantos imprevistos, gestores, professores, estudantes e famílias encontraram-se num momento de muita pressão, com várias dúvidas e incertezas.

Diante da atual situação, os limites impostos têm nos apresentado possibilidades inegáveis de transformação, o que nos remete a uma série de questionamentos: há efetivamente uma preocupação com a qualidade social da aprendizagem? O que este período nos informa a respeito de nossos estudantes e de suas famílias com relação as nossas práticas como educadores?  O que faz sentido manter e o que mudar? É possível repensar o papel da escola e da sociedade na formação das novas gerações?  Podemos dizer que uma consequência positiva desta quarentena será um maior envolvimento das famílias na vida escolar dos estudantes?

A Constituição Federal prevê condições de igualdade no acesso à oferta educacional, e é fundamental compreendermos as questões estruturais que afetam esse direito. É notório que as experiências, sejam boas ou ruins, proporcionam-nos aprendizados, e essa pandemia enfatizou fragilidades voltadas para condições diversas das escolas das regiões brasileiras, entre elas, as voltadas  para o acesso e uso adequado da tecnologia, a valorização dos profissionais da educação, a formação continuada desses profissionais e a valorização do espaço escolar.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) ressalta a importância da valorização do contexto do estudante para dar sentido ao que se aprende, e destaca o protagonismo do estudante em sua aprendizagem e na construção de seu projeto de vida.  Tendo em vista que o currículo apresenta orientações que vão muito além de um conjunto de conteúdos, destacam-se as competências (os conhecimentos, habilidades e atitudes que os estudantes desenvolvem), asseguradas quando os saberes dos estudantes são levados em consideração, quando o conhecimento adquirido contribui para o reconhecimento, o respeito e a valorização do outro, quando o professor estimula a troca de informações e ideias, mantém o foco em informações e conteúdo importantes, promove associações entre informações novas e as já absorvidas, relaciona conteúdo de diferentes áreas do conhecimento, fornece informação quando os estudantes apresentam dificuldades de expor suas ideias e quando há oportunidade para aprofundar a discussão.

Podemos dizer que a escola é um espaço de criação de consenso, de diálogos, de convivências, e que educar é também propagar o respeito mútuo, o respeito à diversidade, com base na convivência e na integração do cotidiano escolar.  Portanto, garantir o exercício do diálogo é preparar os estudantes para tomarem decisões e participarem ativamente dos espaços em que estiverem inseridos, seja na comunidade, no trabalho, na escola. Além disso, os estudantes precisam aprender a escutar, argumentar, respeitar a diversidade e a divergência, adotar valores e posicionar-se no mundo por meio do que aprendem em todos os espaços que frequentam.

No livro Educação Integral ou Parcial? Reflexões para Além da Extensão do Tempo, conto uma de minhas experiências em sala de aula, no desenvolvimento de um projeto a respeito das memórias da comunidade. No momento da exposição dos trabalhos, o recontar a história da comunidade teve como função e tarefa abrir para o indivíduo as questões primordiais da vida, refletir sobre as pessoas, sobre os acontecimentos, fazer um esforço para pensar a realidade e entender que sentido pode ser atribuído às suas narrativas. E foi nesse processo que os estudantes puderam se sentir mais aceitos e mais respeitados em suas histórias e em sua existência. Penso que a atividade de contar e de ouvir as histórias dos outros contribuiu para fortalecer pactos com a vida, por proporcionar contato com os sonhos e com os desejos.

Acredito que não temos mais a prática e talvez o tempo necessário para buscar nossa história. Hoje as pessoas não demonstram ter paciência e disposição para escutar o próximo, saber sobre o outro e muito menos para contar e falar sobre si.  Percebi que alguns estudantes sentiam-se incapazes de enfrentar os desafios que o mundo lhes impõe e alguns grupos de colegas e até suas famílias reforçam esse sentimento. Diante disso, desistem antes mesmo de começar algo, pois julgam que não vão dar conta. Resgatar a autoestima desses jovens e fazer com que eles acreditassem na capacidade de aprender, de enfrentar os desafios, de se esforçar e se dispor para a aprendizagem, foi uma experiência gratificante.

É importante salientar que o resgate e a estruturação da história de vida de cada estudante não foi um processo simples. Senti o quanto as famílias se esforçaram para contribuir com o projeto e como puderam partilhar esse momento com os jovens. Isso determinou que contar a história de vida e as memórias da comunidade pudesse se converter em um momento importante, bastando lembrar o respeito com que os colegas tratavam quem estava contando e dividindo sua história. Sentimos o quanto a participação dos familiares foi essencial para o aprendizado e envolvimento dos estudantes.

Diante do exposto, não podemos esquecer  que, por mais precárias que estejam algumas de nossas escolas, ainda são elas e seus profissionais que acolhem, identificam problemas pelos quais os estudantes passam fora delas, esforçam-se para resolver e fazê-los acreditar que são capazes de enfrentar os desafios e se reinventarem.

Tendo em vista que a educação é um processo presencial e que é um direito, podemos dizer que acontece melhor quando há vínculo. Nesse sentido, o pertencimento a determinado grupo (a escola, a comunidade, o time), a aceitação pelos demais, o sentir-se valorizado e o compartilhar realizações são fatores favoráveis tanto para a construção da autoestima quanto para a adoção dos valores desse grupo.

Logo, se desejamos a autonomia dos estudantes, é essencial que eles aprendam a refletir as decisões que precisam tomar no dia a dia:  aprender a pensar sobre os valores que estão em jogo, sobre as causas e as consequências de diferentes decisões, sobre as intervenções necessárias para fazer valer os princípios de justiça e solidariedade, considerando a perspectiva do bem comum. Se queremos que eles aprendam a respeitar ideias diferentes das suas, temos que ensiná-los a dialogar. Assim, é possível que essa capacidade e atitude de refletir e decidir com base em princípios se desenvolvam e se tornem cada vez mais potentes.


 

Teresinha Morais da Silva é Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUCSP. Especialista em Tecnologias em Educação e em Gestão e Organização Escolar. É graduada em Letras e docente da rede pública do estado de São Paulo (desde 1994). Possui experiência como professora em cursos de graduação. Na Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, participou de formação de educadores no desenvolvimento de projetos educativos; integrou as equipes de coordenação e acompanhamento do Projeto Escola de Tempo Integral (ETI), dos Programas de Educação Integral (Mais Educação e PROEMI) do Ministério da Educação (MEC) e do Comitê Gestor Educacional. Participa da equipe do Programa de Melhoria da Convivência e Proteção Escolar CONVIVA SP. Tem experiência na área de Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: Currículo, Gestão Escolar e Formação Continuada de Professores. Autora do livro Educação Integral ou Parcial? Reflexões para além da extensão do tempo (Editora Appris, 2019).