11/05/2020

Irmandades: devoção e auxílio mútuo

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11/05/2020 - Por: Marcos Amaral Mendes

Nos períodos colonial e imperial da história brasileira incontáveis grupos de leigos, orientados ou não por religiosos, fundaram agremiações voltadas para o culto a um patrono celeste, à assistência social e a ações de caridade. Chamadas de irmandades, tais associações espelhavam-se em grêmios da mesma natureza existentes na Metrópole e que tinham raízes na Idade Média, atingiram o apogeu no século XVIII, entraram em decadência no XIX, mas não desapareceram totalmente da vida sociorreligiosa de muitas localidades brasileiras, embora sem ostentar o brilho de outrora.

Fenômeno tipicamente urbano, as irmandades começavam a ser organizadas logo após a formação de um aglomerado populacional: num mundo marcado pela instabilidade e insegurança acreditava-se que a vida urbana em gestação deveria ser protegida tanto pelas armas quanto pelo poder divino, este representado pelas santidades que prestavam apoio e socorro à população em suas necessidades cotidianas. A Irmandade do Santíssimo Sacramento, responsável pela ereção da Igreja Matriz do lugar, geralmente era a primeira a ser constituída. A população negra, liberta e escrava, quando suficientemente numerosa e capaz de sustentar seus grupos, também estabeleciam suas irmandades invocando uma miríade de protetores celestes: Nossa Senhora do Rosário, São Benedito, Santo Rei Baltazar, Santa Efigênia, Santo Elesbão e Santo Antônio de Categeró, muito embora os dois primeiros tenham sido os mais populares.

Uma irmandade surgia quando determinada santidade fosse capaz de congregar fiéis que se identificavam com os exemplos ditados por sua biografia ou de sua capacidade em atender as demandas manifestadas por seus devotos por meio da operacionalização de milagres. Para que tivessem existência legal e pudessem participar ativamente da vida local, havia necessidade de buscar o reconhecimento das autoridades seculares e eclesiásticas, poderes que procuravam controlar essas associações. Chamava-se “compromisso” o estatuto que ditava as regras de organização e funcionamento dessas coletividades leigas. A instância que as administrava era a mesa, sendo esta presidida por juízes, provedores ou priores (a denominação variava de uma associação para outra). O corpo dirigente era composto, ainda, por tesoureiros, escrivães, procuradores e mordomos, estes últimos também chamados por irmãos de mesa.

À constituição de uma irmandade geralmente seguia-se a concretização de um projeto que desde o início movia aquele agrupamento leigo: a edificação de uma igreja e dependências anexas para serviço da agremiação. Somente irmandades que não exerciam capacidade de agregação suficiente entre a massa de fiéis católicos ou que dispunham de parcos recursos financeiros não conseguiam adquirir terreno para construir sua capela e continuavam aninhadas em altares laterais de templos alheios, isto é, pertencentes a outras devoções titulares. Seja como for, na empreitada de construir templo próprio não poderiam contar com os dízimos eclesiásticos recolhidos pela Coroa, levantando tais edificações às suas próprias custas. De todo modo, sempre procuravam erigir igrejas imponentes para servir de local de encontro aos seus associados e promover festividades de culto para seus patronos celestes.

Os diversos grêmios que se originavam tinham como base principal de sua divisão a cor da pele existindo, desse modo, associações que congregavam brancos, negros e pardos. Dentre os motivos que constituíam forte chamativo para ingresso em uma irmandade, a ação protetora se sobressaía, já que estas prometiam uma série de ações voltadas para o bem-estar de seus filiados que, de outro modo, dificilmente seriam alcançados em contextos sócio-históricos de outrora. Essas associações efetuavam empréstimos monetários, socorriam associados doentes ou que caíssem em estado de miséria e enterravam irmãos falecidos, dentre outros benefícios não estendidos a pessoas estranhas ao grêmio. Em algumas irmandades formadas por negros foram instituídas caixas pias cujo numerário era destinado ao resgate de escravos associados. Tais agremiações, contudo, jamais contestaram o regime escravista, a despeito de seu caráter de organização coesa e de seus templos terem sido para a comunidade negra lugar privilegiado para reuniões e debates. Funcionaram, na verdade, como veículo de inserção dos africanos na religião católica e no sistema colonial.

As irmandades atestam, desse modo, um período histórico no qual os leigos exerceram papel ativo na condução da vida sociorreligiosa de cada localidade. Suas igrejas e capelas atraíam afluência extraordinária de público nos dias de festividade, rompendo o ritmo monótono da vida cotidiana. Seus estatutos regulavam a organização da coletividade, funcionando como depositários das normas acatadas pelo grupo. Todos os acontecimentos que completavam o ciclo de vida de uma pessoa – nascimento, crescimento, casamento e falecimento – eram celebrados nos espaços dessas associações. Consequentemente, quem não fosse filiado a um desses grêmios dificilmente alcançaria uma inserção plena naquela sociedade. Nessa ótica, estudar tais associações permite compreender não apenas as expectativas particulares dos diversos grupos socioculturais, mas a formação da própria sociedade brasileira.

Nos dias atuais quem visita o centro histórico de Cuiabá, capital do estado de Mato Grosso, não deixa de contemplar a arquitetura e os tesouros artísticos da Igreja de Nossa Senhora do Rosário, mais conhecida como sendo de São Benedito entre os cuiabanos. Única das quatro igrejas edificadas no século XVIII que não foi demolida na cidade, é monumento arquitetônico levantado pelas irmandades do Rosário e de São Benedito testemunhando, desse modo, a relevância sociocultural que tais associações assumiram nessas paragens. Congregavam homens de cor, livres e escravos, que se reuniam no espaço sagrado do templo e em suas dependências anexas para honrar seus santos padroeiros, mas também para discutir assuntos de interesse da comunidade negra. Para saber mais sobre o processo histórico dessa igreja e tópicos relacionados a irmandades, religiosidade popular, festas de santos padroeiros, atitudes perante a morte, romanização do catolicismo, atuação da Companhia de Jesus e estruturação de paróquias, leia: MENDES, Marcos Amaral. Entre irmandades e jesuítas: história da Igreja do Rosário em Cuiabá-MT (1750-1981). Curitiba: Appris, 2020. A obra pode ser adquirida aqui


Sobre o autor: Doutor em História e mestre em Geografia (UFMT). Professor da rede pública do estado de Mato Grosso e do município de Cuiabá. Autor das obras Entre irmandades e jesuítas: história da Igreja do Rosário em Cuiabá-MT (Appris, 2020); Identidade e território: estudo sobre a devoção a São Benedito em Cuiabá-MT (EdUFMT, 2014); e História e geografia de Mato Grosso, publicada em quatro edições (Adriana, 2006a, 2006b; Cafarnaum, 2009, 2012).