22/05/2020

Dor que não cicatriza

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22/05/2020 - Por: Maíra de Deus Brito

A população negra é a que mais morre e a que continua a morrer. Os dados não mentem: em dez anos, entre 2006 e 2016, a taxa de homicídios de negros cresceu 23,1%. No mesmo período, a taxa entre os não-negros teve uma redução de 6,8%. Quando analisamos a taxa a partir do recorte da faixa etária, esses números preocupam ainda mais. De acordo com o Atlas da Violência 2017, em 2015, 31.264 jovens entre 15 e 29 anos foram vítimas de homicídio no país. Esse número representa, aproximadamente, 85 jovens mortos por dia.

As mortes desses jovens são notadas no vazio do ambiente de trabalho; na ausência no sistema educacional; no hiato do consumo/produção cultural; e claro, na saudade dentro de casa. As mortes desses jovens têm uma série de consequências hediondas, entre elas, a “dor que não cicatriza” das mães que perderam seus filhos de maneira trágica e violenta.

Era julho de 2016 quando o coração de Joselita de Souza parou de bater. Ela já não se alimentava bem havia alguns meses e a alimentação baseada apenas em sopas causou um quadro de pneumonia e anemia. A causa da falta de apetite: tristeza. O filho dela, Roberto, 16 anos, foi uma das cinco vítimas da chacina de Costa Barros, em novembro de 2015.

Parentes relatam que Joselita era uma mulher alegre e disposta, que fazia academia, adorava samba, era cabelereira, fazia artesanato e costurava roupas. Mas o assassinato do filho mudou tudo. A depressão se instalou e foi agravada com a soltura dos policiais que estariam envolvidos no assassinato.

Era maio de 2018 quando o coração de Vera Lúcia dos Santos parou de bater. Dias antes do dia das mães, ela foi encontrada morta em casa. A morte de Vera, de acordo com Instituto Médico Legal, foi por edema agudo dos pulmões, complicações cardíacas e da diabetes. A investigação segue em aberto, mas ainda não há um conclusão para o caso.

Vera é mãe de Ana Paula, que estava grávida de nove meses. No dia 16 de maio de 2006, Ana daria luz a Bianca. Entretanto, um dia antes, tudo desmoronou. Ao irem ao comércio para comprar leite, Ana Paula, Bianca (na barriga) e Joey (marido de Ana) foram executados. No velório, a Polícia Militar revistou os presentes e pediu os documentos de cada um. Ana Paula, Bianca e Joey foram algumas das vítimas de uma série de assassinatos no estado de São Paulo.

Dois anos depois da tragédia, Vera viu sua casa ser revistada e destruída pela polícia. Acusaram ela de tráfico de drogas. Foi presa, cumpriu pena e estava em liberdade. Há muito tempo, Vera mostrava sinais que não suportava mais a ausência da filha, do genro e da neta que nem chegou a nascer.

Era novembro de 2018 quando o coração de Janaina Soares parou de bater. Janaina foi vítima de seis paradas cardíacas e um infarto e, há três anos, convivia com a depressão.

A doença veio em 2015, após o filho Christian, 13 anos, ser morto em uma operação da Divisão de Homicídios e da Polícia Militar em Manguinhos. Christian e o irmão, Caique, foram criados sozinhos pela mãe. O pai das crianças foi morto durante um assalto no metrô, local onde trabalhava.

Dois dias antes da sua morte, Janaina, que fazia parte do grupo Mães de Manguinhos, enviou para as companheiras de ativismo a notícia que um jovem de 17 anos tinha sido morto. Mais um corpo negro caído no chão pelas mãos do Estado.

As mortes dos filhos de Joselita, Vera e Janaina causaram nelas depressão, complicações na saúde física e culminaram na morte. Entretanto, apesar das inúmeras consequência físicas e emocionais, muitas mães seguem aqui firmes e dispostas a denunciar o extermínio da juventude negra no Brasil. Essas mortes têm influência dos preconceitos de gênero, raça e classe e por isso precisam ser analisadas com atenção. Esse extermínio precisa ser denunciado para que possa ser combatido.

Para saber mais sobre o tema, leia “Não. Ele não está”. No livro, falo sobre a principal frente do genocídio da população negra, o extermínio da juventude negra, a partir da história de vida de mães que perderam os filhos assassinados.

Referências

ATLAS DA VIOLÊNCIA 2017. Brasília: Ipea, 2017.

ATLAS DA VIOLÊNCIA 2018. Brasília: Ipea, 2018.

CAMARANTE, André (org.). Mães de Maio: Dez anos dos crimes de maio de 2006. São Paulo: Nós Por Nós, 2016.

O GLOBO. O adeus de Joselita, mãe de menino morto em Costa Barros. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/rio/o-adeus-de-joselita-mae-de-menino-morto-em-costa-barros-19680236>. Acesso em 23 jan. 2019.

PONTE. Artigo | O Rio não amanheceu: mortes a tiros e uma mãe que tombou. Disponível em: <https://ponte.org/artigo-o-rio-nao-amanheceu-mortes-a-tiros-e-uma-mae-que-tombou/>.  Acesso em 23 jan. 2019.

UNIVERSA UOL. Amiga e familiares tentam esclarecer morte de fundadora das "Mães de Maio". Disponível em: <https://universa.uol.com.br/noticias/redacao/2018/05/13/morre-fundadora-da-maes-de-maio-que-teve-filha-gravida-e-o-genro-mortos.htm>. Acesso em 23 jan. 2019.


Sobre a autora: Maíra de Deus Brito possui graduação em Comunicação Social - Jornalismo pelo Centro Universitário de Brasília (2009). Tem experiência na área de Comunicação, com ênfase em Jornalismo e Editoração. Possui especialização em Gestão de Políticas Públicas para Gênero e Raça pela Universidade de Brasília (2014). Pela mesma instituição, é mestra e doutoranda em Direitos Humanos e Cidadania (PPGDH/CEAM/UnB, 2017). É professora voluntária da Faculdade de Direito da UnB e integrante do grupo Maré - Núcleo de Estudos e Pesquisa em Cultura Jurídica e Atlântico Negro. Em novembro de 2018, lançou o primeiro livro solo, "Não. Ele não está" (Editora Appris).