27/05/2020

Gênero: uma pauta fundamental

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22/01/2019 - Por: Redson Silva

Fruto das ciências sociais e humanas, os estudos e escritos de gênero tem causado furor e asco entre diferentes setores da sociedade. As diferenciações entre homens e mulheres, forjadas através de suas aparências e dos usos dos seus corpos provocam um mal  estar social e humano que gera conflitos incalculáveis no cotidiano das pessoas. Inscreve-se como categoria de análise e busca dar legitimidade a diversidade humana.

 Nesse sentido, os estudos sobre as civilizações e as relações sociais priorizavam um modelo hegemônico, onde o homem branco, heterossexual e cristão se punha como referência, como padrão. A emergência do gênero vem então denunciar apagamentos históricos e privilegiar enquanto análise e reflexão características sociais e da sexualidade  que fogem dos padrões determinados, apresentando outros sentimentos, posturas, sexualidades e sensibilidades.

Ao denunciar que tal pauta não se estabelece através de uma discussão biológica, mas social, descortina  uma estrutura estratificada como modelo ideal, como instrumentalização da família tradicional, que embora  se sustente com base na ideia de reprodução e moralidade cristã, esconde por baixo das aparências sociais, uma série de violências de gênero e tentativas de readequações  em torno de sexualidades divergentes.

As discussões de gênero causam medo a instituições formadoras e reguladoras da sociedade como igreja, parlamentos conservadores, famílias e escolas tradicionais, por que temem perder a hegemonia sobre os rumos políticos e econômicos da sociedade, apavoram-se pela emergência de uma nova mentalidade mais inclusiva.No entanto , essa mesma sociedade ao determinar desde o momento de nascimento de uma criança, quem ela é e quais desejos lhe são relacionados, ou seja, permitidos ou proibidos, ela isola e encarcera todo aquele que não se enquadra nessa designação. Desejo não se determina, vive-se! Entender por exemplo que “ser um homem feminino não fere o meu lado masculino” é desde muito tempo um desafio, mas traço fundamental.

Apesar das negações, as expressões de gênero se mostram cada vez mais evidentes no cotidiano, nas ruas, nas casas, escolas ,igrejas , empresas e qualquer espaço social. O que se entende a partir daí é que negar as diferentes experiências humanas e impor um perfil de gênero sem compreender as manifestações pessoais  e sentimentais do indivíduo, isso causa transtornos mentais, psicológicos e socias visíveis e invisíveis. Alias, obrigar a invisibilidade mulheres, lgbts e suas expressões, alimenta um círculo de ódio , onde os defensores da moral vigente recorrem a alternativas de eliminação física ou isolamentos a tentativas de reeducação sexual e da sexualidade baseada em supostas determinações biológicas numa hierarquia que menospreza o desejo e o instinto.

Se por um lado temem perturbações a ordem familiar  e a estrutura hierárquica  e de poder  a qual a família tradicional  mantem o monopólio, por outro ignoram os sofrimentos e crimes que pessoas que apresentam expressões e /ou identidades de gênero diferentes daquelas que a sociedade heteronormativa quer  que todos tenham , possam ser vítimas.

Ao longo da história e na contemporaneidade o gênero se estabeleceu como um padrão de diferenciação e seletividade, qualquer trejeito que aparente sensibilidade, emotividade, o mundo rosa, frágil e submisso era identificado ao espírito feminino, em contraposição, a coragem, braveza, espírito de iniciativa e político do mundo do homem. E portanto que não se ultrapassassem as barreiras entre feminino e masculino, afinal, a conveniência da família tradicional já demarcou os lugares socias. Os estudos de gênero vem então como um instrumento de libertação, para que se possa assumir o que se é, sem as imposições dos padrões estabelecidos. 

Para além da história das mulheres, o conceito de gênero auxilia na compreensão dos lgbts, em função da quebra de estrutura que os modos e sujeitos escancaram. Assim, o conceito de gênero não impõe características, ele permite que elas se mostrem,  sem acusações e julgamentos, na esteira dessas questões, vale ressaltar que as homossexualidades, portanto, não são ensinadas ou impostas, mas devem ser vivenciadas de forma livre. Não se trata ainda de fazer a criança seguir outra sexualidade, mas de não constrangê-la se por acaso ela não demonstrar instintos e expressões, que não seja exatamente o que a família tradicional espera. A sexualidade e suas expressões nascem com o ser humano.

O argumento comumente usado, “deixem nossas crianças em paz”, ou “quando elas forem grandes que decidam” é apenas uma armadilha , pois as discriminações de gênero começam desde cedo e avançam na idade adulta. Quem teme os estudos de gênero  se põe contra  a libertação e independência da mulher e contra as homossexualidades independente da idade da pessoa. É uma disputa por espaço, discurso e poder.

A título de exemplo, certa vez uma mulher estranhou que um professor exercesse sua função porque ele possuía uma voz fina e era gay. Perguntou :”você ministra aulas assim?” Na convicção apresentada o estranhamento era que alguém com um corpo e órgãos biologicamente relacionados ao universo masculino se apresentasse com uma voz fina, que a sociedade e não a biologia determinam como relacional ao universo feminino. Daí qualquer constrangimento é discriminação de gênero, é preconceito social e cultural, não é determinado pela biologia. As expressões de gênero do professor, sejam elas quais forem não interferem no desenvolvimento do seu trabalho e não devem ser justificativas para conflitos interpessoais.

Acesse a obra do autor: Corpos Homossexuais e Experiências Normatizadoras 


Sobre o autor: Redson Silva é professor de História e Geografia na educação básica. Mestre em História Social pela PUC/SP. Vencedor do concurso de crônicas do Museu Paulista, na categoria popular com o texto "O encanto pelo Museu", em 2016.