27/05/2020

Como olhar para o sofrimento pode fazer todo sentido

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19/03/2019 - Por: Roberta Melo

Qual é o caminho para uma vida sem dor e sofrimento? Nietzsche diria: - Superação! Pra ele, o sofrimento é uma mera passagem para um estado mais elevado do espírito, no qual esse sentimento se assemelha mais a um degrau na subida pela superação de si do que um estado de “suportamento” da dor. Mas por que pra algumas pessoas sofrer representa um fardo sem fim, um acúmulo de frustrações que se amontoam ao longo da vida? Para respondermos a essa pergunta, precisamos partir do princípio de que tudo é uma questão de perspectiva.

Na busca pelo sentido da palavra sofrimento vamos chegar a algumas respostas que se estendem pela Filosofia e mesmo pela própria língua portuguesa. Resumindo aqui, eu posso dizer que é todo ato ou efeito de sentir dor física ou moral; padecimento; amargura; resignação; desastre. Dá pra acrescentar também a angústia, o medo, a ansiedade, o desespero, a revolta, a autodepreciação etc. Diante de tantos efeitos, o sofrimento acaba por se constituir em um permanente estado que promove uma condição degradante de profunda tristeza.

Historicamente, a palavra que mais se aproxima dessa profunda tristeza é Akedia. Palavra grega, composta de Kedos, que significa importar-se com, porém, somada do prefixo negativo, temos: não se importar com. Akedia vem com o sentido de descrever um estado de desinteresse que pode se manifestar como estupor e falta de participação na vida.

Na antiguidade clássica, podemos encontrar os primeiros esboços sobre o sofrimento melancólico nos escritos de Homero, na Ilíada, no qual Bellerofonte é vítima de ódio dos deuses e por eles condenado ao sofrimento e à solidão. Pobre Bellerofonte. Para Aristóteles (384–322 a.C.), esse estado melancólico é uma patologia que atingia pessoas ilustres, devido à uma sensibilidade maior de seus organismos. Segundo ele, nessas pessoas havia a possibilidade de alta concentração de bile negra. Entretanto se houvesse uma concentração moderada da mesma bile, o homem se tornaria um gênio, desencadeando habilidades em diversas áreas do conhecimento. Talvez Aristóteles enxergasse o fato de que uma aristocracia, que por “natureza” não se dedica ao trabalho prático e completamente ausente de atividades fosse um ambiente propício pra um triste vazio mesmo. Aí talvez fique valendo a máxima “mente vazia, oficina do diabo!”.

A partir do século IV d.C., com os patriarcas da igreja e pensadores de Alexandria, o termo adquiriu um significado mais técnico, passando a descrever um estado de saciedade com a vida ou de cansaço. Esse vazio existencial do clero tinha um nome bem apropriado – demônio do meio-dia. A akedia, nesse caso, “atacava” os monges durante o dia e gerava neles uma verdadeira “deprê”. Vista como doença do mosteiro, fazia da vida dos monges um verdadeiro tédio! Mas tinha gente que não via uma ação sobrenatural nessa situação. Para o monge João Cassiano (d.C. 360–432), a akedia era uma forma de subcategoria eremítica da tristeza comum. Esse seria o pior dos sentimentos, já que nesse estado nem a figura do Deus supremo tinha graça.  Os monges, de alguma forma, rejeitavam sua vocação, passando a uma condição de oposição completa a alegria que era estar na presença do Onipotente.

No Renascimento, a concepção aristotélica reassume o posto de superioridade hierárquica das experiências humanas como fonte de inspiração e assim se estendeu até o século XVIII. Aí, na Idade da Razão, a emoção humana torna-se objeto de estudo científico e passa a ser submetida a critérios de exame que a redundam a aspectos materialistas. A emoção, como tudo na modernidade, passa a ser medida, calculada, organizada para apresentar um “jeito certo” de ser e pensar. Quem não se encaixasse no padrão tinha lugar certo - hospício ou prisão. Pior para os “diferentões”, porque ali não havia espaço pra nada que não se enquadrasse na ordem lógico-racional do conhecimento científico.

Na passagem do tempo as coisas ainda pioraram, porque na contemporaneidade perdemos também o “direito” de sofrer pelo “leite derramado”. Dentro do modelo de verdade já estabelecido na modernidade acoplaram um detalhe que virou a cereja do bolo – você TEM que ser feliz. Não dá tempo de ter dor de cotovelo, luto ou melancolia. Na presença dos desconfortos da vida, busque a farmácia, o bar ou o relacionamento mais próximo de você e volte ao seu estado “normal”. O que temos é um modelo de felicidade construído no ocidente que toma como projeto civilizacional livrar a condição humana das adversidades naturais, visando à emancipação de toda forma de sofrimento.

Não é um privilégio do nosso tempo essa busca pela felicidade, mas a ânsia desesperada por não sofrer, sim. Há a negação de um aspecto da condição humana que é deprimir (não a doença), chorar, desesperar (não ter esperança) em nome de um estado permanente de conforto e bem-estar. Em outros tempos, homens comuns e pensadores também procuraram respostas para suavizar e gerar um estado mais pleno do ser, mas nesses casos a questão era a busca por um estado d´alma que fizesse o sujeito aprender a entender e a justificar o sofrimento que lhe chegava.

Fascinado pela filosofia de Schopenhauer, Friedrich Nietzsche também caminhou durante um tempo nessa mesma direção  se a vida consiste em dor e quanto mais nos esforçamos para aproveitá-la, mais ela nos escraviza, precisamos abrir mão das vantagens oferecidas por ela e devemos buscar a cautela em nossas ações. Essa filosofia da abstinência que herdou do velho mestre foi gradativamente substituída depois de dez anos de fidelidade.

Por volta de 1876 envolvido por uma série de leituras e uma incrível viagem ao mar da Itália, Nietzsche começou a mudar seu itinerário filosófico. Ele passou a reconhecer que para alcançar a satisfação não é necessário evitar o sofrimento e sim perceber nele uma etapa natural e inevitável no processo de conquista de algum bem. Aqui está uma das possíveis perspectivas sobre o sofrimento que mencionei lá no início do texto — afirmação do sofrimento.

Pra Nietzsche, a busca da satisfação, da própria felicidade exige a passagem por diversas e constantes dificuldades. Uma felicidade absoluta é inviável, a vida prática requer necessariamente um aperfeiçoamento constante. A essência da vida é o eterno devir, é uma eterna superação galgada a partir das dificuldades do caminho. Uma vida isenta da experiência da dor e do trágico seria apenas uma busca sem fim. O sofrimento visto por uma perspectiva afirmativa é, portanto, uma espécie de trampolim para a satisfação na vida.

Grandes homens chegaram a um pleno contentamento em suas vidas porque foram comprometidos com ela e atingiram seus objetivos ultrapassando as dificuldades e fracassos. Eles representaram muito bem o que Nietzsche chamou de Além do homem, já que trataram suas vidas a partir de uma superação dos valores estabelecidos, transpondo os limites morais e sociais de suas épocas na verdadeira representação de quem buscavam ser. Estes não tinham medo da vida, pelo contrário, haviam explorado todas as suas possibilidades individuais e possuíam, segundo Nietzsche, “vida” — no sentido da coragem, da ambição, da dignidade, da força de caráter, do humor, da independência — e ao mesmo tempo possuindo uma ausência de hipocrisia, conformismo, ressentimento e presunção. Todas as suas ações estavam baseadas no que Nietzsche chamou de vontade de potência — princípio pelo qual a vida se projeta para além dela mesma e toda forma de verdadeira completude com a vida advém da superação.

Em uma relação profunda com a vontade de potência, aquele que se identifica com o Além do homem (Übermenschen, em bom alemão) transpõe o conceito de sofrimento para uma instância diferente ou superior, na qual aprende a lidar com o que não pode evitar. Acima de tudo, ser um Übermenschen é se perceber como alguém que tem por medida a si mesmo, por que uma das piores fontes de sofrimento está na falsa ideia de que existe um modelo único pra experimentar a vida. Essa ilusão aparece de duas formas:

— por meio da expectativa gerada pelos outros (e por nós também) de que sempre devemos apresentar uma constância profunda em nossas atitudes, pensamentos e comportamentos, ou seja, você deve sempre parecer o mesmo. Sem tirar e nem por nada de novo;

— pelo nosso desejo de cumprirmos, de maneira plenamente determinava pela sociedade, os papéis sociais de pai, profissional, esposa etc.

Todas as vezes que tentarmos nos encaixar nas formas prontas à força, vamos nos ferir. Agradar os outros ou determinar o nosso estilo por um padrão externo é como usar um sapato com um número menor que o nosso, vai machucar. Somos seres da plasticidade, não fomos feitos pra funcionar de uma única forma adequada de ser.

Mudar, transformar e ser único é uma capacidade humana, mas sempre no nosso tempo, dentro das nossas possibilidades. Qualquer coisa diferente disso vai gerar mais transtorno do que solução, mas sofrimento do que superação.*

Acesse a obra da autora: Ressentir ou Afirmar? Perspectivas Nietzscheanas sobre a DorCorpos Homossexuais e Experiências Normatizadoras 


 

Sobre a autoraRoberta Melo é graduada, especialista e mestre em Filosofia; professora com mais de 10 anos de carreira; colaboradora da enciclopédia virtual <knoow.net> com verbetes de Filosofia e apresentadora de vídeos sobre Filosofia no canal Sopro de Atena <https://www.youtube.com/soprodeatena>.