27/05/2020

O papel da ciência na formação da opinião pública sobre coronavírus e política

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27/05/2020 - PorRafael Batista Andrade

O jornal Folha de S.Paulo atingiu recorde de audiência por dois meses consecutivos, março e abril de 2020. Esse é um sinal de que os brasileiros e as brasileiras têm privilegiado o acesso a informações que possuem certo grau de credibilidade para se posicionarem em relação aos acontecimentos recentes do país.  Mas o que podemos dizer dos nossos níveis de engajamento nos debates a respeito dos desdobramentos de temas políticos da atualidade?

É verdade que, com a pandemia do novo coronavírus, parte da população brasileira passou a reconhecer o papel da ciência no seu cotidiano. Embora alguns descrentes em epidemiologistas, infectologistas e em outros especialistas da área de saúde venham tentando desmoronar o posicionamento destes, a força dos argumentos com base científica tem possibilitado um alto nível de debate no que diz respeito a essa esfera da sociedade, mais particularmente à pandemia. Tanto é assim que outros posicionamentos não encontram justificativas razoáveis baseadas na experiência de outros países e no histórico mundial de outras epidemias.

Essa ponte entre ciência e a população, construída nos últimos meses pela mídia, deveria ter seus pilares fortalecidos. Da mesma forma que as informações científicas têm qualificado o nível do debate e das decisões em torno da pandemia do novo coronavírus, esse conhecimento deveria ser utilizado para a população posicionar-se com mais precisão no debate político. Assim, poderíamos conseguir melhorar o nosso nível de engajamento nos debates sobre política nacional e internacional.

Precisamos reconhecer que, nos últimos anos, as discussões sobre política no Brasil resumiram-se a uma tentativa, talvez um pouco frustrada, de separar o joio (corruptos) do trigo (políticos honestos). Isso ocorreu muito mais com base em ideias do senso comum que em argumentos com evidências científicas. Em síntese, houve a demonização de alguns partidos políticos e a idealização de figuras aparentemente contrárias à velha política. Parte significativa da opinião pública brasileira optou pelo desprezo do papel essencial que aquelas instituições, e outras, continuariam tendo para o aperfeiçoamento da nossa democracia. Uma clara demonstração de desconhecimento da importância dos discursos institucionais em nossas atividades sociais diárias.     

Para ficarmos apenas em um exemplo mais recente, relembremos algumas polêmicas, no campo da diplomacia, desencadeadas por Eduardo Bolsonaro. Em 2019, o presidente da República queria que o filho assumisse a função de embaixador nos Estados Unidos. Embora parte da imprensa tenha cumprido o seu papel, este não deu muitas contribuições para um debate de alto nível em torno das práticas diplomáticas que envolvem o Estado brasileiro. Isso porque boa parte da mídia parece ainda não ter dado muita importância às contribuições das ciências da linguagem para discussões desse tipo. Falou-se muito de nepotismo, da má repercussão dessa escolha, mas pouco, ou quase nada, das habilidades discursivas que a função de diplomata exige.

Em 2020, ocorreu algo similar. Aquele mesmo ator político causou uma crise diplomática entre Brasil e China em plena pandemia do novo coronavírus. Novamente, a convocação de especialistas em temas afins foi bastante restrita. Alguns cientistas políticos emitiram suas opiniões, porém pouco se debateu sobre aspectos associados à enunciação diplomática: tradição da diplomacia brasileira nos âmbitos bilateral, regional e multilateral; identidade diplomática do Brasil; comparação entre o posicionamento diplomático do Brasil com o de outros Estados etc. 

Discutir política e diplomacia sem levar em conta a noção de discurso faz com que tenhamos um nível de engajamento baixo em torno de debates sobre esses temas. Portanto, a sociedade deveria usufruir da divulgação de pesquisas científicas sobre o discurso político e o discurso diplomático a fim de aperfeiçoar o nosso engajamento nessas áreas (e em muitas outras). Quando um ator político usa sua língua materna, ou uma língua estrangeira, para se posicionar em relação a um tema de interesse público, deixa em seus textos a visão de mundo de um ator social que age em uma comunidade discursiva. De certa forma, todos nós fazemos parte dessa comunidade enquanto cidadãos. A opinião pública somos nós. Precisamos, pois, posicionarmo-nos com maior consciência discursiva sobre os temas que nos interessam e nos dizem respeito.  

Acesse a obra do autor: Discurso e Identidade Diplomática


Sobre o autorRafael Batista Andrade é Doutor em Estudos Linguísticos pela UFMG, com estágio na Université Paris IV e na Universidad de Cádiz. É docente do curso de Licenciatura em Letras e de cursos Técnicos do IFMG-Congonhas. Dedica-se ao estudo dos discursos institucionais, do discurso diplomático e da canção dialógica de Maria Bethânia.