29/05/2020

O que nos ensinam as escolas de artes marciais?

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16/01/2019 - Por: Marcel Alves Franco

Em determinado período, as formas de combate correspondiam à sobrevivência humana. O confronto entre duas forças pode ser considerado uma luta. A disputa por um território pode ser considerada uma luta.

Sob um formato de código de honra, regras foram sendo criadas no âmbito das lutas de modo a atender uma realidade, uma hierarquia, valores construídos e instituídos para um grupo ou sociedade. Devido seu contexto, práticas e técnicas de lutas passam a ser criadas e reconhecidas entre diferentes populações.

Atualmente, é possível identificarmos diversos locais para a prática de algum tipo de luta. Cada espaço com sua organização, regras de conduta e técnicas. Cada instrutor com sua forma de transmitir seus conhecimentos e preparar seus alunos e cada aluno com seu objetivo em querer participar das aulas. Seja para desenvolver habilidades, melhorar a qualidade de vida, participar de competições e/ou defesa pessoal, há espaço para os diversos objetivos pessoais em locais como escolas de artes marciais.

Apesar de serem os mais variados objetivos pessoais que estes locais – as escolas de artes marciais – englobam, há um princípio que guia a prática de todos: o aperfeiçoamento. Entretanto, aperfeiçoamento de quê? Das técnicas marciais de defesa? Do corpo? Da mente? Do espírito? Esses são questionamentos comuns a todos que buscam iniciar alguma prática e levam um certo tempo para alguma resposta.

Escolas de artes marciais buscam transmitir, por meio dos exercícios e práticas, ensinamentos que impactam na vida das pessoas fora desses locais, no dia-a-dia. Hoje em dia, nos deparamos com cenários de desrespeito e violências. Dito isso, as escolas de artes marciais surgem como opção de pessoas que passam ou passaram por alguma situação e querem evita-las ou mesmo saber se defender quando necessário. Todavia, um dos primeiros princípios de toda defesa pessoal é conhecer a si mesmo e a seu próprio limite.

É pelo sentido do autoconhecimento que todos os objetivos pessoais passam a ser atendidos. Conhecer a si mesmo demanda um exercício de percepção de nossas ações, de nossos sentimentos, de nossa forma de ser e de lidar com os outros e as situações com as quais nos deparamos. Mas, o que se ganha com o autoconhecimento?

Retomando aquelas mesmas perguntas, desenvolvemos nosso aspecto técnico-marcial. Nosso corpo começa a sofrer as adaptações fisiológicas que os exercícios físicos, a atividade física, que os treinamentos promovem a cada aula. Nossa mente tende a desenvolver um estado de temperança e sensibilidade perceptiva, pois, as aulas nos permitem alcançar nossos medos, angústias e outras sensações que nos permitem praticar a resiliência e a resistência. Assim, conhecer como agimos nessas ocasiões e construir novas atitudes, uma melhor forma de nós mesmos. O espírito do qual se fala nas escolas de artes marciais, pode ser compreendido como forma de expressar nossa força de vontade. A cada aula, podemos colocar em prática nossa força de vontade por meio da realização dos exercícios, indo além do desgaste do corpo e da mente. O espírito, portanto, é o que une as duas dimensões, o corpo e a mente, e nos dá noção de nossa integridade.

Diante disso, praticar artes marciais, deve ser uma expressão que demonstre nossa capacidade de iniciar projetos e finaliza-los. Ao mesmo tempo, deve ser uma expressão que explicita nossa forma de ser e nossa força de vontade. Não se trata de ser o mais forte, ou o mais rápido; ser artista marcial representa o comprometimento de conhecer a si mesmo todos os dias e buscar ser melhor, uma pessoa melhor para a sociedade na qual vivemos e a qual queremos para as gerações seguintes. Conhecer a nós mesmos, é isso o que as escolas de artes marciais ensinam.

Para saber mais sobre o tema, conheça a obra: Aikido, Cuidado de Si e Educação Física: trilhando um caminho para uma arte do bem viver, de autoria de Marcel Alves Franco, Editora Appris (2018).< https://www.editoraappris.com.br/produto/2382-aikido-cuidado-de-si-e-educao-fsica-trilhando-um-caminho-para-uma-arte-do-bem-viver>.

 


 

Sobre o autorPraticante de Aikido há pouco mais de 8 anos, tem graduação (UFS) e Mestrado em Educação Física (UFRN), atualmente é discente no curso de doutorado do Programa Associado de Pós-Graduação em Educação Física da Universidade de Pernambuco e Universidade Federal da Paraíba, foi professor temporário na Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Endereço eletrônico: macfranco1@gmail.com