29/05/2020

Quanto vale a sua vida?

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22/01/2020 - Por: Nildo Viana

Se alguém perguntar aos leitores deste artigo, “quanto quer (em dinheiro) por sua vida” ou “quanto vale a sua vida”, a maioria deles ficaria surpresa, sem entender ou indignada. A vida é considerada por muitos como um valor fundamental e o direito à vida, bem como o respeito, é algo quase consensual em nossa sociedade. Assim, perguntar sobre o valor monetário da vida é uma ofensa, um disparate ou então uma brincadeira de mau gosto.

No entanto, tudo o que precisamos para viver precisa ser comprado com dinheiro. O ser humano, para sobreviver, precisa de habitação, alimentação e inúmeros outros bens materiais e todos eles, na nossa sociedade, são mercadorias, ou seja, bens materiais portadores de valores de uso e valores de troca, produzidas em determinadas empresas por trabalhadores assalariados e vendidas no mercado. A natureza foi mercantilizada. Então, para satisfazer as necessidades básicas, precisamos adquirir mercadorias. Mas o ser humano não possui apenas as necessidades que compartilha com os animais, pois ele tem necessidades especificamente humanas, como a práxis (trabalho teleológico consciente através do qual desenvolvemos nossas potencialidades, tal como a criatividade) e a socialidade (relações sociais harmônicas com os demais seres humanos). E para concretizar isso, mesmo que parcialmente, na sociedade moderna, precisamos de consumir mercancias, ou seja, bens coletivos, culturais ou até mesmo materiais, que possuem valor de uso e valor de troca, mas não são mercadorias, pois são produzidas fora do âmbito das empresas e relações de produção capitalistas.

Disto isto tudo, então a conclusão óbvia é a de que para viver, na sociedade capitalista, precisamos de dinheiro. O quanto de dinheiro precisamos para viver nesta sociedade? Para saber isso, teríamos que fazer o cálculo mercantil de quanto gastaríamos durante toda a nossa existência e assim teremos o montante necessário (abstraindo a inflação e outros processos que complexificam o cálculo). Se a pergunta fosse nesse sentido, não seria tão absurda.

Porém, a pergunta não é essa. O que se quer saber é quanto, em dinheiro, vale a sua vida. Ora, quem estipularia um valor monetário para algo que possui um valor cultural tão alto? Se tudo é mercantilizado na sociedade capitalista, adquirindo valor de troca, então por qual motivo a vida ficaria de fora? Justamente por entrar em conflito com os valores culturais, com as necessidades humanas (a socialidade), a moral, os sentimentos simpáticos dos seres humanos. Então observamos o choque de duas forças: a da mercantilização, que se expande para cada vez mais coisas, e a da humanização, que limita e busca abolir a transformação dos seres humanos em valores de troca.

A força da mercantilização já prevaleceu como no caso da escravidão negra, pois os escravos (sua vida) eram vendidos em troca de dinheiro. O processo civilizatório parcialmente coibiu esse processo tornando-o ilegal e imoral, mas ainda permanece o trabalho escravo em lugares que a fiscalização não atua e de forma parcial na prostituição, na venda de órgãos humanos e no tráfico internacional de seres humanos.

Porém, a moral e a lei sempre se relativizam quando a necessidade dos poderosos e a reprodução da sociedade exigem. Hoje se faz muitos sacrifícios em um país pelo “crescimento econômico”, assim como muitos indivíduos se sacrificam para aumentar seu poder aquisitivo e seu consumo. A sociedade moderna existe sob o signo da mercantilização e esta é uma necessidade imperiosa que tende a arrastar e colocar um preço em tudo.  É por isso que podemos dizer que o futuro da humanidade será decidido no confronto entre mercantilização e humanização, e quanto mais um avança, mais o outro recua.

A mercantilização das relações sociais invade e mercantiliza tudo. Mas as necessidades especificamente humanas continuam existindo e resistindo, mesmo que marginalmente. A insatisfação aumenta mesmo quando a posse de riquezas permite consumir o que se desejar, pois o consumo é distinto da autorrealização e de relações sociais autênticas e harmônicas. Por fim, podemos dizer que a humanidade se encontra diante da decisão entre continuar o processo de mercantilização e desumanização, que aponta para sua autodestruição, ou realizar uma transformação radical e total, que é possível e depende apenas dos seres humanos resolveram tomar o seu destino em suas mãos. A vida da competição, exploração, solidão, sofrimento psíquico, violência, destruição ambiental, ao lado da miséria dos bilhões com pouco ou nenhum dinheiro, deve ser superada e para isso é preciso começar a pensar e agir no sentido dessa transformação. A consciência desse processo é o primeiro passo para tomar a decisão acertada e salvar a humanidade dela mesma.

 

Para saber mais sobre o tema, conheça a obra “A Mercantilização das Relações Sociais”, de Nildo Viana.


 

Sobre o autor: Nildo Viana possui Graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Goiás (1992), Especialização em Filosofia pela Universidade Católica de Brasília, Mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás (1995), Mestrado em Sociologia pela Universidade de Brasília (1999) e doutorado em Sociologia pela Universidade de Brasília (2003) e pós-doutorado pela USP. Atualmente é professor da Universidade Federal de Goiás. Tem experiência na área de Sociologia e Filosofia, com produção multidisciplinar e ênfase em Teoria Sociológica e algumas Sociologias Especiais (Sociologia da Cultura e da Arte - Valores, Representações, Cinema, Música, Histórias em Quadrinhos -, entre outras), Estudos da Sociedade Contemporânea (Neoliberalismo, Globalização, Toyotismo, Exclusão Social) e Epistemologia/Metodologia das Ciências Humanas. Autor de diversos livros e artigos em revistas especializadas e coordenador da Coleção Biblioteca Universitária Autêntica, Série Ciências Sociais, da Editora Autêntica.