08/06/2020

Dependência Química e Sexualidade: duas interfaces da mesma humanidade?

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08/06/2020 - Por: Alessandra Diehl

Nesses vinte e poucos anos que trabalho com pessoas com problemas pelo uso de substâncias e com seus familiares, sempre notei uma lacuna imensa na abordagem de questões relativas à dimensão sexual desses pacientes nos contextos de tratamento por onde já trabalhei. À medida que comecei a estudar mais o universo da dependência química, mais eu sentia a necessidade de me aprofundar no universo da sexualidade humana, pois já percebia que existia uma associação estreita entre esses dois mundos.

No entanto, quando quis me apropriar desses conhecimentos, tive bastantes dificuldades de encontrar material compilado ou até mesmo de obter experiências de outras pessoas que trabalhavam com a dependência química em estruturação de programas e ações voltadas às questões relativas à dimensão sexual. Também percebi barreiras em fazer com que essas duas áreas do conhecimento começassem a dialogar de forma assertiva e distante de ideologias, “achismos” ou dogmas pré-estabelecidos pelas esferas de cuidados vigentes.

E, por acreditar que a sexualidade não pode mais seguir sendo invisível, periférica ou delegada a um segundo plano nos inúmeros locais disponíveis para o tratamento de pessoas com transtornos decorrentes do uso de substâncias, é que desenvolvo trabalhos e estudos nessa interface do conhecimento. A sexualidade é uma faceta inerente ao ser humano. Considerada uma dimensão central da vida do indivíduo, deve ser entendida em sua multidimensionalidade frente à complexidade e à importância de sua presença em todas as dimensões do desenvolvimento humano. Trata-se, portanto, de um tema de interesse multidisciplinar, cuja abordagem é influenciada pelas múltiplas interações existentes entre fatores biológicos, psicológicos, sociais, históricos, econômicos, políticos, culturais, éticos, legais, religiosos e espirituais.

Tratar da sexualidade não é uma tarefa fácil, pois a abrangência dessa esfera da vida humana e toda a estratificação de sentidos que historicamente se sedimentaram em torno dela terminara produzindo certo desconhecimento do ser humano com relação à sua própria sexualidade. Frequentemente os aspectos relacionados às vivências sexuais se veem submersas em um espectro de valores morais, demarcados e demarcadores de condutas, usos e hábitos sociais que remetem a mais de um sujeito. Com o recrudescimento atual de crenças obscurantistas dentro de um preocupante cenário neoconservador, o qual evidencia retrocessos em relação às políticas públicas arduamente conquistadas nas últimas décadas, é urgente e necessário fomentar uma reflexão sobre a sexualidade humana pautada em evidências científicas.

Por essas razões, as questões relacionadas à sexualidade têm sido alvo de acalorados debates e inúmeros questionamentos nos dias atuais. Algo semelhante ocorre com a abordagem de pessoas que fazem uso de álcool e outras drogas e, eventualmente, sofrem com a dependência química. Uma das crenças mais comumente observadas em profissionais de saúde é a de que dependentes químicos não são merecedores de cuidados. O estigma e a discriminação estão entre os principais obstáculos para a prevenção, tratamento e cuidado em relação à pessoa com transtornos relacionados ao uso de substâncias. A dupla discriminação que existe em torno da relação entre sexualidade e uso de substâncias (outro assunto polêmico) tem sido tema propulsor de inúmeras controvérsias que atualmente agitam a sociedade, requerendo o posicionamento urgente da sociedade.

É urgente a necessidade de aumentar a compreensão dos profissionais da saúde, em especial daqueles que lidam diretamente com comportamentos adictivos, sobre a sexualidade, a saúde sexual, a diversidade sexual, os comportamentos sexuais de risco e a disfunção sexual entre usuários de álcool e outras drogas. Além de compreender a necessidade de se avaliar o histórico de trauma sexual, abuso sexual, aborto, estupro e a necessidade de incorporar a avaliação de fatores de risco e do estímulo a práticas sexuais mais seguras na rotina dos tratamentos atualmente disponíveis para a dependência química.

Também é igualmente urgente que a abordagem seja respeitosa, inclusiva, ética, numa atmosfera de não julgamento e com mais acolhimento para que as pessoas possam sentir-se abertas a falar sobre sua sexualidade, seus vínculos, seus problemas sexuais, seus afetos e desafetos.

Embora a mudança de comportamento individual seja fundamental para melhorar a saúde sexual, também são necessários esforços para lidar com os determinantes mais amplos de comportamento sexual, particularmente aqueles que se relacionam com o contexto social. Intervenções comportamentais abrangentes são necessárias e devem considerar o contexto social na estruturação de seus programas em nível individual, assim como tentar modificar as normas sociais que apoiam a manutenção de mudança de comportamento, e trabalhar as competências de forma assertiva e os fatores que contribuem para determinado comportamento sexual de risco, por exemplo. Incluir a dimensão sexual nos tratamentos de usuários de substâncias é compreender que estamos respeitando tudo aquilo que nos torna mais humanos e nos humaniza e nos realiza enquanto pessoas no sentido mais profundo dessa compreensão. Parafraseando como bem escreveu o Dr. Ronaldo Zacharias (2019, p. 45):

A ética do cuidado se caracteriza por um estilo de presença que põe no centro a pessoa mais frágil e vulnerável. A prevenção e o tratamento da dependência implicam o combate a toda forma de desigualdade, discriminação, indiferença, exclusão e injustiça.

Conheça a obra da autora: Dependência Química e Sexualidade: Um Guia para Profissionais que Atuam em Serviços de Tratamento


Sobre a autora: Alessandra Diehl é Psiquiatra, educadora sexual, especialista em Dependência Química e Sexualidade Humana. Vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (ABEAD).