17/06/2020

A lição ambiental da COVID-19

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17/06/2020 - Por: Carlos Magno

Durante a pandemia do COVID-19, com boa parte das pessoas em distanciamento social, vivenciou-se a semana do meio ambiente. Apesar do sofrimento pela perda das 45 mil vítimas oficiais no Brasil e do aumento do desmatamento de áreas florestais, enquanto o foco da mídia noticiava o pandemônio político nacional e os protestos internacionais contra o racismo, boa parte da natureza respira agora, um pouco mais aliviada pela diminuição da atividade humana.

No entanto, mais uma incerteza paira nesse conturbado panorama. Será que a reflexão e o sofrimento imposto pelo necessário distanciamento social proporcionará, ao menos, algum aumento no nível de consciência socioambiental do ser humano? Ou se continuará no porvir da pandemia a se ignorar a crise ambiecológica multifacetada, em que a sociedade está mergulhada.

Esse período de homenagem ao ambiente é mais uma oportunidade para se refletir sobre o valor das fontes que fornecem os alimentos. Na origem da produção alimentar, um dos elementos principais é o solo, mas como um filho ingrato e guloso, a sociedade do consumismo não reconhece o essencial valor da Mãe Terra. Na escalada da ignorância ambiental, a indiferença se transforma no desprezo, posto pelos contínuos ataques à biosfera. Urge uma reflexão para descobrir qual foi o início da marcha de ingratidão pela vida, que abriu um abismo entre o ser humano e o sentimento de sagrado na natureza.

O respeito pelo ambiente, a admiração pela ecologia, a contemplação do belo das paisagens, a absorção da energia renovadora da natureza e a consciência de que, para sobrevivermos, precisamos dos recursos naturais, foram diluídas pela importância dada a compreensão das relações humanas nos processos político, econômico, social e de si mesmo.

O antropocentrismo é o resultado dessa concentração excessiva nas relações humanas, que minimiza a importância dada a dimensão ambiental. No imediatismo das relações antropocêntricas a biodiversidade não é relevante, visto que não se respeita o corpo do planeta, a terra, nem o seu sangue, a água. Apesar de ser o precioso líquido da vida, não há muitos projetos globais a longo prazo para garantir o acesso por todos à água potável.  

Paradoxalmente, no planeta azul pela enorme quantidade de água, aproximadamente dois bilhões de pessoas sofrem com a escassez hídrica e segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), a água potável e acessível é de aproximadamente 0,02% do total. Entretanto, a humanidade continua crescer exigindo um consumo cada vez maior, para atender o fantasioso paradigma do crescimento contínuo. Como consequência desse progresso que nunca chega para a maioria, destroem-se os maciços florestais desregulando a harmonia do ciclo hídrico.

Dentre os importantes recursos ambientais, as florestas ocupam um lugar de destaque. O que outrora era um imenso tapete verde cobrindo em torno de 30% da superfície do planeta, foi carcomido em aproximadamente 10 mil anos depois da descoberta da agricultura. Com o advento da primeira revolução industrial, o ritmo do desflorestamento aumentou e acelerou para uma velocidade bem maior nos dois séculos anteriores, em que mais de 50% das florestas primárias foram desmatadas. Apesar dos plantios de monoculturas de árvores para atender a demanda de celulose, as grandes florestas foram e estão sendo hodiernamente desmatadas, queimadas e, em algumas regiões, o manto florestal foi transformado numa colcha retalhada com pedaços de matas separadas.

A responsável por esse desmatamento em larga escala é a civilização da energia fóssil, que literalmente ligou o motor do consumismo. As atividades antrópicas exigidas para atender o excesso de consumo, principalmente de madeira e carne, transformaram sistematicamente em alta velocidade grande parte do carbono fixado pelas florestas numa quantidade colossal de dióxido de carbono e o injetou para a atmosfera.

A falta de visão futura da míope sociedade neoliberal movida pelo lucro do imediatismo fez um péssimo negócio a longo prazo. Optou por trocar os vitais serviços ambientais das florestas, da verde biomassa fixadora de carbono e fazedoras de chuvas que regam a vida, pelas cinzentas selvas de concreto recheadas de favelas, com suas impermeabilizadoras estradas de asfalto e concentradoras de calor.  Na escolha da mercantilização dos ecossistemas da natureza, não é só a vida humana quem perde e o preço pago será alto, quando for contabilizado o deficit ambiental. A conta pela fragilização da sinergia que interliga os ecossistemas já está sendo cobrada cruelmente por meio da extinção de inúmeras formas de vida.  

A biodiversidade, o maior triunfo da Terra que levou um tempo geológico para evoluir, vem sendo suprimida por décadas pelas ações da “inteligência humana”. O progresso anunciado pelo desenvolvimentismo, movido em essência por ganância, egoísmo e pela busca de poder, debilita as funções ecológicas e aniquila as mais variadas formas de vida, do reino vegetal e animal. O ser humano na sua triga avassaladora de viver para consumir e não de consumir para viver, esgota a biocapacidade dos ecossistemas, os quais funcionam como centros de forças que se conectam, retroalimentam-se e tecem a teia da vida no planeta.

Terra, água, florestas e biodiversidade são elos de construção da formação da vida complexa. Foram edificados laboriosamente em milhões de anos para que a vida tivesse condição de evoluir no planeta. A humanidade tem o dever ético de salvaguardar essa obra misteriosa que, entre outros benefícios, proporcionou ao ser humano o aprimoramento de sua consciência. Dessa forma, uma das lições trazidas pelo sofrimento causado pela atual pandemia é trazer mais sensibilidade para o desenvolvimento de um espírito ecológico.

Com a simbologia da semana do meio ambiente e a reflexão proporcionada pelo distanciamento social, a humanidade teve a oportunidade ímpar de novamente sacralizar a natureza e desenvolver uma consciência mais socioecológica. A relação pandemia e ambiente pode trazer a cientificação sincera de que, sem os serviços e bens ambientais da natureza, não se terá condições de exercer a cidadania, a subjetividade e desenvolver as virtudes do espírito humano, para, enfim, alçar-se um nível de sabedoria, respeito e serenidade  no uso dos recursos da natureza.

Acesse a obra do autor: Ciência Ambiecológica: Por uma Razão Espiritualizada


Sobre o autor: Professor no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN).